O escritor e jornalista Carlos Lúcio Gontijo lançou “TEMPO IMPRESSO”, calhamaço que recolhe sua trajetória jornalística. Um punhado de gente venceu o frio e o deslocamento a fim de prestigiar o lançamento de “TEMPO IMPRESSO” (edição do autor ilustrada, formato A4, 387 páginas), obra recém-publicada do escritor, jornalista e poeta CARLOS LÚCIO GONTIJO (taurino de 27 de abril de 1952), ontem à noite, 04 de julho, coincidente Dia da Independência estadunidense, na Biblioteca Estadual Luiz de Bessa, em BH. “Independência”, penso, é palavra importante para Carlos Lúcio Gontijo. Lançamento sem azeitona, sem champanhe, foi quem foi pelo autor e obra.

Atualmente, Carlos mora em Santo Antônio do Monte-MG, a terra dos foguetes, mas nasceu na Rua das Vassouras, no bairro Bom Jesus, em BH, e morou na vizinha Contagem por 25 anos a fio, sendo esposo de Nina, pai de Amanda e Lucas, avô de Luara (filha de Amanda) e Júlia (filha de Lucas). Nina, sua mulher, me disse que ela vai muito a Contagem, em residência hoje ocupada por um dos filhos do casal.

Carlos Lúcio Gontijo fez carreira por 30 anos no saudoso jornal “Diário da Tarde” (BH) e colaborou com muitos outros veículos, ainda hoje colabora com alguns, o homem não para de escrever. Autor de dedicada obra literária (mais adulta, que infantil) e jornalística, ele colheu homenagens fruto do trabalho e rede de amigos aparentemente de boa cepa. Seu site na Internet, www.carlosluciogontijo.jor.br, é fonte de pesquisa e fruição.

Nenhuma novidade, dirão os seus parentes, ex-colegas de jornal e amigos de Carlos presentes ao lançamento, tesouro cultivado ao longo de décadas por um homem bom (não santo), escritor independente, engajado e responsável, pois basta ler os seus textos para notar cuidado, lucidez e entrega no que faz. Se genial, se mediano, se agrada, se desagrada, depende do leitor, mas 40 anos de escrita não é brincadeira.

Registro, singelamente, lembranças do breve discurso de Carlos Lúcio Gontijo, ontem à noite, na Biblioteca Estadual Luiz de Bessa. Não gravei, nem fotografei nada em aparelho tecnológico, mas gravei na minha cachola, em regozijo íntimo, algumas das suas palavras. Mais importante do que foi dito ipsis litteris, foi notar a segurança de um homem maduro e escritor responsável que Carlos inspirou ali, o que vai ao encontro do que penso ser importante em alguém que se presta a escrever.

A escrita literária e jornalística podem se prestar ao inútil, ao supérfluo, como típico dos espíritos zombeteiros no plano espiritual, o que não gera frutos de aperfeiçoamento humano e social, algo diferente da escrita que se presta a ser bela e útil às pessoas, esclarecendo-as, pois as trevas não dormem, humanizando-os, pois o homem sem cultivo fica matéria brutalizada, politizando-os, pois, sem isso, ficamos idiotas da própria pólis, e encantando-os de beleza sincera, pois a boa prosa literária e o bom poema metafórico consolam e comovem, fazem a gente ter mais simpatia pela vida e pelo gênero humano.

Em suas palavras ontem à noite, Carlos – que dei a todos os presentes exemplares da sua nova obra, fazendo para cada um especial dedicatória – foi sintético como um artigo de jornal, dos quais estava acostumado a fazer. Antes das suas palavras, li poemas, prosas e artigos jornalísticos presentes na sua nova obra, que não destoaram das palavras proferidas presencialmente pelo escritor, por ocasião do lançamento, mostrando que a retórica não destoou da oratória, e da ação biográfica (?).

Carlos foi seguro em seu sintético discurso, o disse sem afetação, algo próprio do homem maduro, livre de idolatrias, fetiches, ambições desmedidas; um homem inteiro estava ali diante dos meus olhos. Será meu respeito pelos mais velhos, pensará o cético leitor? Se for, mérito meu e de Carlos, pois em qualquer sociedade digna deste nome, as mulheres (que dão vida) e os anciões (que têm o conhecimento da vida) devem ser respeitados e admirados. Fora isso, eu vi um homem bom e um escritor responsável ali.

Carlos agradeceu a todos que se deslocaram naquela segunda-feira fria a fim de prestigiar o seu lançamento, reconhecendo a dificuldade de fazê-lo em uma grande urbe brasileira, depois, sem delongas, falou da importância da literatura e do jornalismo passarem uma “mensagem” aos leitores, diferenciando-se, com o modesto vocábulo “mensagem”, das literaturas e jornalismos gratuitos, poemas feitos aos borbotões, mas sem metáfora e sangue, sem cuidado com a qualidade formal e de conteúdo, ou mesmo do jornalismo onde o jornalista aparece mais do que a matéria veiculada, como lemos em um dos seus artigos colhidos no seu novo livro.

Em suas palavras, Carlos falou que poucos são escolhidos para ser famosos, sendo a fama atributo que empresas conferem a alguns indivíduos, portanto, de natureza capitalista e exclusivista, sendo, portanto, inacessível a todos, mas lembrou-nos Carlos que todos podemos ser bem-sucedidos na vida (sem qualquer soslaio de “autoajuda” aqui), estando o verdadeiro sucesso de vida ao alcance de todos que sejam sinceros e, para Carlos, esse sucesso está em amar os próximos, em amar o lar, “por menor que seja ele, lembrando que o nosso lar é a expressão do indivíduo que o habita”, ele disse.

Durante a própria noite de lançamento, li artigos do livro “TEMPO IMPRESSO”, de Carlos Lúcio Gontijo, logo eu que fui contumaz leitor d’ O DIÁRIO DA TARDE, nos anos 1990, inclusive colunas de Danuza Leão, que eu colecionava, achando que ela era uma sábia das relações entre homem e mulher (era pra mim, de certa forma). Escrevo o que escrevo agora porque não queria que o sentimento positivo que Obra recém-lançada e o seu digno Autor me inspiraram e, por isso, faço a presente resenha, apressada, falha e incompleta.

Até hoje duvido da importância e da função da literatura na vida das pessoas, por vezes considero muito mais útil quem constrói uma casa (pedreiro), quem destrincha um animal comestível (magarefe) para horror dos futuros vegetarianos e veganos, quem molda um móvel (carpinteiro), quem faz ou conserta uma vestimenta (alfaiate ou costureira), quem, como uma cantineira de escola pública, faz com amor a merenda que muitas vezes é a principal refeição de uma criança, alimento que irá permitir que ela absorva o conhecimento (intelectual) que professor(a) lhe dará durante as suas aulas, quando prestam atenção, claro. Admiro o artesão, que fará a gamela que será utensílio e enfeite à mesa de todos.

Pergunto-me: onde entra a utilidade do escritor no sentido de fazer as pessoas felizes; a cidade feliz, a república feliz? Para Platão, não havia, trata-se o escritor/poeta de um inútil, a quem, após darem-se todas as honras, deve ser deportado da sua República Ideal.

Concordando ou discordando de Platão, identifico-me com escritores construtivos, espécie de meio-termo, livres da vaidade pessoal e úteis a si, aos próximos e a todos, como me pareceu Carlos Lúcio Gontijo, sem desmerecer os críticos e satíricos que chamam a atenção para avacalhamentos da Vida.

Da mesma forma que admiro os que constroem casas, moldam móveis, cosem roupas, cozinham e formam indivíduos e futuros líderes da sociedade. Penso que há espaço para todas as vocações, preferencialmente quando cada um cumpre com liberdade e responsabilidade a sua vocação, pois liberdade sem responsabilidade é libertinagem irresponsável.

Em “TEMPO IMPRESSO” (2016), esta nova obra de Carlos Lúcio Gontijo que foca sua atuação jornalística, há uma frase interessante, sobre a qual penso que ele queria falar de jornalismo em específico, mas que transcende o mesmo e fala da vida de um modo geral, intitulada “Versejando jornal”, que resume o que eu quis expressar acima.

É um convite saboroso ao leitor que interesse-se por ler o novo trabalho de um velho combatente:

“A verdadeira liberdade não consiste em andarmos sozinhos, mas aprendermos a caminhar com o outro sem o sentimento de perda da independência”.

Vinícius Fernandes Cardoso
Jornalista – Contagem/MG