Carlos Lúcio Gontijo
Quis o destino que nos coubesse a honra de, juntamente com a equipe da “Estação Cultura Viva”, cuidar da montagem de acervo em homenagem ao Cônego Pedro Paulo Michla, ou simplesmente o Padre Paulo, um alemão que veio para o Brasil no transcorrer da Segunda Guerra Mundial e fez de Santo Antônio do Monte o seu berço de florescimento de fé em Deus e de seu empreendedorismo, transformado numa espécie de terço de orações, que tinha nas obras as suas iluminadas e brilhantes contas.
Rigoroso em seu sermão, certamente com palavras extraídas de seu afã realizador e pouco tolerante com a falta de iniciativa e o esmorecimento por coisas pequenas, consciente que era das dificuldades da vida impostas por um mundo no qual o ser humano era (e é) capaz de promover guerras e matanças que lhe ferem a decantada condição de animal racional. Padre Paulo tinha o trabalho como o centro gravitacional de sua vida, em torno do qual tudo girava, inclusive a sua devoção a Nossa Senhora de Fátima.
Dessa forma, a materialização de sua fé foi se espalhando pela nossa Santo Antônio do Monte afora: a construção da Santa Casa de Misericórdia, o asilo, a casa da criança, a Escola Estadual Dr. Álvaro Brandão, numa sequência interminável de oração materializada, constituindo uma efetiva romaria de braços, tijolo e cimento.
Temos em nós um lamento diante do fato de estarmos montando o acervo do Padre Paulo após 34 anos de sua morte, pois esse fato nos trouxe muitas dificuldades, que cuidamos em não transformar em impossibilidade, numa busca de consonância com a própria vida daquele sacerdote alemão, cujas obras continuam falando por ele nos dias de hoje. Compete-nos, portanto, agradecer à Loja Maçônica Mestres do Monte que nos ofertou um pedestal para colocar o busto do homenageado; ao empresário Sandro Leopoldo, pela cortesia de nos premiar com um belo painel; à família do “João Enfermeiro”, à Maria Divina, viúva de Arnaldo Franco (grande amigo do Padre Paulo e que com ele estava na Alemanha por ocasião de sua morte), ao professor Nei Borges, diretor da Escola Estadual Dr. Álvaro Brandão, e à Sônia Veneroso, presidente da Academia Santantoniense de Letras, pelas informações, quadros, objetos e fotos; à Ângela Santos, diretora do jornal Gazeta Montense, por nos auxiliar na liberação de sofá que pertenceu ao sagrado benfeitor de batina; aos conselheiros do Patrimônio Histórico que não se opuseram à transferência de paramentos e caneta que estavam no Centro de Memória para o acervo instalado na Casa do Padrinho Vigário, ao lado do quarto do Monsenhor Otaviano. Enfim, nosso agradecimento a todos que abraçaram a nossa ideia, visualizando a importância da iniciativa.
Em nossa casa, conservamos a máquina de datilografia que o visionário Padre Paulo nos deu quando ainda cursávamos o ensino primário na Escola Waldomiro de Magalhães Pinto e já fazíamos uns poemas embebidos na doçura infantil. Disse-nos ele: “Você vai ser escritor e precisará de datilografia”. A saudosa dona Georgina Franco de Oliveira nos ensinou e, agora, estamos aqui a digitar, fazendo uso daquele aprendizado e, assim, poder comunicar ao povo santo-antoniense que, finalmente, no dia 29 de setembro de 2014, pagando uma dívida de gratidão, inauguraremos o acervo do Cônego Pedro Paulo Michla, às 19 horas, com uma missa, em frente à Casa do Padrinho Vigário, sob a crença de que, com esse ato de valorização de nossa história, estamos incentivando o surgimento de novos benfeitores dispostos a jogar, com o seu trabalho, alguma luz de amor ao próximo em prol de uma Santo Antônio do Monte cada vez mais capaz de abrigar seus cidadãos sob o divino teto da igualdade e da justiça social.
Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
Secretário de Cultura e Turismo
www.carlosluciogontijo.jor.br

12 de setembro de 2014.