Carlos Lúcio Gontijo

Não entendemos que jornalismo é esse feito no Brasil de hoje, no qual a estrela é o jornalista, que se coloca acima da notícia e até do entrevistado, passando a sacar seu microfone ou as teclas de seu computador como se tais ferramentas fossem uma espécie de arma. Somos levados a acreditar que o jornalista aceitou, definitivamente, o papel de simples representante dos interesses de seus patrões e grupos político-econômicos a que apoiam.

A imensa maioria dos jornalistas foge da opinião assinada, da responsabilidade por um artigo, mas anda usando o entrevistado como pano de fundo para propagar ao público as ideias da empresa de comunicação para a qual trabalha. Assim, ao transformar a notícia e o pensamento alheio em simples detalhe, o jornalista entrega à internet a visão do outro lado da questão, independentemente de a informação virtual sofrer os danos advindos da postagem inconsequente de milhares de usuários. Contudo, ali reside alguma possibilidade de o leitor encontrar a exposição da realidade muitas vezes totalmente escondida ou escamoteada pela grande imprensa.

Desde o surgimento do produto impresso sabe-se que o conteúdo informativo pode contribuir para o engrandecimento do ser humano ou traçar o empobrecimento intelectual da sociedade, conduzindo-a ao caminho da informação desatrelada do alicerce da verdade e capaz de provocar o caos da discórdia.
            Longe de nós a imposição da tese da imparcialidade aos veículos de comunicação, uma vez que é parte inarredável de todos nós o exercício da escolha e da preferência, que precisa ser equilibrado com a abertura de espaço para a edição de múltiplas versões. Porém, se não é possível a adoção dessa boa prática jornalística, cabe aos jornais, emissoras de televisão e rádio, blogs e sites deixarem explícitos o seu posicionamento político e a sua ligação visceral com os grupos econômicos aos quais defendem. Ou seja, o que não vale é ficar posando de democrata e representante supremo de isenção e leito para o livre desaguar do pensamento, quando na realidade tem comportamento de partido político, com a vantagem de não estar preso a regras eleitorais e, portanto, detentor de desmedida força para influir (e influenciar) de maneira perniciosa no resultado das urnas.
            A internet está a cobrar da velha imprensa a transparência plena de seu noticiário, pois visivelmente não tem mais condição alguma de ser proprietária exclusiva do fato, com o poder de divulgar ou não divulgar, de noticiar pela metade ou proteger figuras influentes envolvidas em assunto desairoso que virou manchete. Os antigos donos da notícia estão demorando demais a perceber que não há mais como sonegar ou partidarizar os acontecimentos, pois eles estão expostos em tempo real, com toda a indisfarçável crueza contida em cada um deles, colocando em xeque a versão veiculada na grande mídia, que insiste em se nos apresentar sob o rótulo de proprietária exclusiva de tudo que ocorre Brasil e mundo afora, acreditando que basta que ela não divulgue para que o fato não exista. Em suma, com o advento da internet, a velha mídia deixou de ser simulacro de cartório de autenticação da notícia, que passou a circular livremente, dispensando o seu carimbo.

Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
www.carlosluciogontijo.jor.br
16 de setembro de 2014.