Carlos Lúcio Gontijo

          Poucos são os profissionais que, pelo exercício e esforço profissional, juntam o nome de batismo à logomarca da empresa em que trabalham: José Antônio da “Copasa”, ou simplesmente Zé da Copasa, foi uma dessas pessoas raras. Pode parecer pouco, mas num mundo de tanto exemplo e prática de levar vantagem em tudo, o normal é assistirmos a um punhado de gente pouco disposta a cumprir com suas obrigações funcionais. Aliás, os que nada fazem são os que mais reivindicam e reclamam.
          Muito mais que medir o consumo de água registrado nos relógios das casas e prédios, José Antônio, certamente pelo afeto em relação às pessoas, guardava na mente os endereços de todas elas, como quem a qualquer momento pudesse manter contato de amizade. Foi assim que o conheci em Santo Antônio do Monte. Ele me foi apresentado e lhe disseram: este é o Carlos Lúcio, filho do senhor José Carlos Gontijo, ex-fiscal da Receita Federal... “Ah, sei quem é! Mora na rua tal número tal”, entrecortou o apresentado. E tudo absolutamente certo e exposto de uma maneira tão sem pestanejar, que até pensei estar perante um computador em carne e osso – mais osso, pois Zé da Copasa era bem magro.
          Daí em diante, toda vez que o via, geralmente na Pizzaria Koisa Nossa, ele me repetia o cumprimento: “gran-grande Car-carlos Lu-lúcio, es-escritor”! Ali, eu o encontrava na mesa 24, onde tradicionalmente, há anos, um grupo de bons amigos se reúne, para tomar uma cerveja gelada e, mineira e fraternalmente, bater-papo. E assim, com o passar do tempo, tomei a liberdade de chamá-lo apenas de “Copasa” – o meu amigo Copasa!
          José Antônio Copasa, feito se passou comigo, viveu muitos anos em Belo Horizonte, numa época em que a capital de todos os mineiros se nos apresentava sob o verdor de encantador bucolismo e completamente desprovido de violência urbana. Podíamos andar a pé pelas madrugadas afora, de bar em bar, principalmente no centro da cidade, sem enfrentar o risco de ser assaltado. Passávamos horas e horas, falando sobre a vida boa que, cada um ao seu modo, havia experimentado em nossa querida BH.
          Nessas conversas, descobrimos até que tínhamos amigos comuns, como o caso dos irmãos Gílson e Son Salvador, que é chargista do jornal Estado de Minas. Ele era atleticano dos mais fanáticos e eu cruzeirense, mas jamais entramos em discussão por causa de futebol, conscientes de que a amizade se faz com pontes e não com muros. Ou seja, buscávamos dialogar dentro do que nos unia e nos favorecia a criação de laços.
          Hoje, dia 23 de setembro de 2014, a primavera da vida perde uma primorosa espécie de flor humana, que está quase em extinção: gente de verdade. A morte do José Antônio da Copasa representa uma enorme perda no que diz respeito à visualização material de uma pessoa simples, bom cidadão, bom chefe de família e, acima de tudo, um amigo presente e leal.
          O Copasa foi embora deste mundo em momento de grande preocupação com os mananciais hídricos que, devido à ação depredatória do bicho homem, infelizmente cada vez mais hedonista, construindo uma moderna e incivilizada civilização, vão se escasseando. A água que, em Santo Antônio do Monte, também escapou pelas mãos do descuido, acabou de perder a sua central de endereços, vai ter que aprender sozinha a como chegar às casas, pois não pode mais contar com o auxílio do Zé da Copasa, um menino doce como a água que nos mata a sede e que, nos finais de semana, não se fará de rogado e, certamente, perguntará a São Pedro, que entende de chuva como ele sabe de água: “Quan-quan-quanto fi-fi-ficou o jo-jogo do-do Galo?”
          Carlos Lúcio Gontijo
          Poeta, escritor e jornalista
           www.carlosluciogontijo.jor.br

          24 DE SETEMBRO DE 2014.