Carlos Lúcio Gontijo

                                 

          Há quem defenda a ideia de que não é preciso acreditar em Deus, basta admirar a natureza à nossa volta. O mesmo se dá em relação aos jardins, nos quais o que conta, segundo o materialismo extremado, é apenas a beleza das flores, dispensando-se a imaginação de que ali possam morar fadas e duendes. Ou seja, há muitos discursos em favor do endurecimento da sensibilidade, da alma e do espírito que ornamentam a razão e o corpo humano.

          No arcabouço desse prisma está a fragilização galopante da literatura, com a qual estou editorialmente metido desde 1977, quando lancei meus primeiros livros, que àquela época encontravam muito mais facilidade de comercialização. Podia-se, por exemplo, sair ruas afora apertando campainhas e oferecendo exemplares às pessoas, mas hoje tal procedimento em nada resultaria, pois a violência combinada com o desinteresse pelo produto impresso cuida de manter as portas fechadas.

          Se editar um livro é difícil e caro, muito mais problemática é a sua comercialização. Outro dia mesmo assisti a um jovem autor tentando vender seu livro no parque municipal de Belo Horizonte, numa ensolarada manhã de domingo. Portava ele uma enorme mochila às costas, com a qual desfilava diante da indiferença das pessoas, enquanto eu mentalmente retornava ao início de minha carreira literária, o que me conduziu à plena certeza de que, sem algum sonho, alguma crença em forças superiores, alguma possibilidade de apoio de fadas e duendes, aquele jovem jamais encontraria o necessário combustível para sua jornada cultural solitária.

          Ainda naquele domingo, um amigo ganhou da tia, como presente de aniversário, um livro. Pois bem, assim que a senhora saiu, a família pôs na mesa de discussão a indagação sobre se livro poderia ser considerado presente, mesmo com o aniversariante se mostrando contente com a obra literária que tinha às mãos. Não entrei na discussão, lembrando-me de recomendação da minha avó Venina Gomes, que foi professora e costumava dizer que não existe nada mais atrevido que a ignorância. E cá para nós, o momento era de festa e qualquer contestação poderia provocar descabida conturbação do ambiente, que tinha naquele instante de desordem intelectual o seu princípio de ordem e progresso.

         Pouco mais tarde, questões de alguns dias, uma menina de oito anos recebeu do padrinho maravilhosa coleção de livros infantis, que veio em embrulho benfeito. Em volta de uma mesa, os convidados para o aniversário da menina acompanhavam a menina no ato ofegante de desembrulhar. Contudo, quando a garota viu que se tratava de livros, desceu uma “carranca” de explícita insatisfação. Surpreso e sem graça, só restou ao padrinho prometer outro presente, como forma de consolar a afilhada.

        É de 38 anos o tempo que passou desde o lançamento de meu primeiro livro, hoje já somam 17 e, apesar de todos os atropelos e pedras no caminho, não tenho mais como parar e, além do dever de trabalhar e disseminar o dom da palavra escrita com que nasci, eu conto com a proteção do Criador e com a pueril certeza de que duendes e fadas povoam os jardins de palavras semeadas nas páginas dos livros à espera de ser fertilizadas pelos olhos de algum leitor ainda não contaminado pelo culto exacerbado à imagem e à indústria de eventos e lazer, onde cultura não entra nem como simples detalhe, apesar de ela estar para o conhecimento e a sensibilização da razão humana como o gol para o futebol.

          Carlos Lúcio Gontijo

          Poeta, escritor e jornalista

         www.carlosluciogontijo.jor.br

         03 de janeiro de 2015.