Carlos Lúcio Gontijo

          Todo ser humano se encaminha para a extinção, rumo à bíblica e celestial sobrevivência no reino da espiritualidade, que aos nossos olhos é dádiva intangível. Padre Antônio Vieira, religioso português, disseminava em sua filosofia a ideia de que não existe imposto mais cruel que a morte, predestinação que recai sobre todo ser vivo e que, exatamente por ser o destino de todos, se transforma em taxação divina, justa, democrática e indiscutível. 

          Hoje, dia 14 de janeiro de 2015, faleceu Maria José Cardoso de Oliveira, a querida Dona Dedé, esposa do saudoso Dr. Wilmar de Oliveira, médico que prestou inestimáveis serviços à sociedade de Santo Antônio do Monte. Conheci Dona Dedé ainda no meu tempo de criança, quando minha família se transferiu de Santa Rita de Caldas para o município santo-antoniense, no qual meu pai veio exercer a função de fiscal da Receita Federal, no posto da instituição que à época existia na cidade.

        Pois bem, não demorou muito para que eu me deparasse com Dona Dedé, uma bela mulher, educada, alegre, afetuosa, falante e bastante envolvida com a cultura local, tanto por sua decisiva participação quanto por sua mentalidade evoluída e explícita disposição para colocar a mão na massa, auxiliando a comunidade na busca de desenvolvimento cultural, ciente de que somente por intermédio da cultura podemos construir um mundo de cidadãos mais sensíveis e capazes de colocar em prática o iluminado amor ao próximo apregoado por Jesus Cristo.

       Dessa forma, como estava sempre na labuta de projetos sociais, a cujos eventos fazia questão de se apresentar bem vestida, bem penteada e maquiada, Dona Dedé era presença constante no salão de beleza que minha saudosa mãe Betty mantinha em nossa casa, na Rua Sebastião Gontijo, gerando oportunidade de eu poder observá-la de perto e perceber, em sua maneira de tratar as pessoas, um horizonte de grandeza, uma claridade espargida igual e fraternalmente entre todos, independentemente de cor, credo ou poder econômico.

      Lembro-me bem de uma ocasião que se tornou indelével em minha memória e que, agora, exponho publicamente pela primeira vez, como forma de demonstrar a capacidade de acolher que ornava os braços do coração de Dona Dedé, que estava à espera de atendimento de minha mãe em seu salão de beleza, quando eu entrei desesperado no recinto cheio de clientes, pois era um sábado, com evento noturno marcado no tradicional Glória Clube.

     Tínhamos em casa um mico-estrela, manso e inteiramente domesticado, tanto assim que vivia solto pela casa afora. Naquela ocasião, diante da aglomeração de freguesas, minha mãe optou por trancar o bicho no banheiro, a fim de que ele não incomodasse o pessoal. Todavia e infelizmente, ele caiu no vaso sanitário e, por razão desconhecida, não conseguiu se safar, morrendo afogado. Criança que era, pus-me a chorar.

     Ao notar minha aflição e vendo que minha mãe estava absolutamente comprometida no atendimento à clientela do salão de beleza, Dona Dedé se propôs a cuidar da situação: pegou-me pelo braço, preparou-me um copo d’água com açúcar, passou-me às mãos uma caixa de madeira que mamãe usava como fôrma de fazer doce cristalizado, onde indicou que eu colocasse o corpo sem vida do mico de estimação. Consolou-me com palavras de tamanho afeto que, sem pestanejar, peguei a caixa com o animal e o enterrei ao pé de uma laranjeira que tínhamos no quintal, com o pensamento fixo na certeza de que, assim procedendo, a energia invisível que habitava o corpo daquele mico teria mais facilidade de ir ao encontro dos galhos da árvore e, invisivelmente, continuar o seu festivo saltitar.

          Vai longe aquele tempo e, de lá para cá, fui encontrando-me com Dona Dedé em alguns lançamentos de livros de minha autoria em Santo Antônio do Monte, até chegar o dia de hoje, quando recebi a notícia de seu falecimento, ao qual compreendo como uma misteriosa mudança de dimensão espacial, através da qual perdemos a condição, por nosso precário, imperfeito e falho entendimento humano, de ver e tocar o ente querido que, invisivelmente, continua existindo no prometido Paraíso, aos cuidados do supremo desígnio do Criador.

         Carlos Lúcio Gontijo

         Poeta, escritor e jornalista

         www.carlosluciogontijo.jor.br

        14 de janeiro de 2015.