Carlos Lúcio Gontijo

       Meus bons amigos, a maioria arrebanhada ao longo de minha carreira literária e jornalística, me deram a oportunidade de discutir, em iluminados bate-papos pelas madrugadas afora, sobre o doce licor da espiritualidade das forças invisíveis que nos rodeiam e constantemente se manifestam no passageiro plano em que vivemos. Trata-se de amigos especiais, em busca de crescimento e evolução como pessoas, que comigo se reúnem para falar sobre o que são, e não demonstrar o que, materialmente, têm.

       Não acredito em casualidade nem coincidência, pois consigo perceber os sinais da intercessão divina em minha vida, que em muitos casos se me vêm através do espírito amigo, que sobre mim derrama o horizonte translúcido da amizade, tornando verdadeiro o verso que grafei no poema “Privacidade”: A amizade é joia de anjo/ Arranjo divino para nossa sobrevivência.

      No dia 4 de janeiro de 2015, recebi telefonema da prima Maria do Carmo Silva (a querida Docarmo), que reside em Floriano, no Piauí. A razão do contato era a solicitação de um depoimento sobre a Tia Francisquinha (Francisca Alves da Silva), que marcou história naquela cidade piauiense como professora e cidadã sempre envolvida em causas e anseios da população local.

       Por suas ações em vida, Tia Francisquinha será homenageada em livro e a lembrança de meu nome para tecer palavras sobre sua profícua trajetória me encheu de emoção e honra. Imediatamente então, pus-me a cumprir o pedido. Como tinha consulta médica marcada (em Belo Horizonte), apressei-me na redação do depoimento, passando à minha esposa Nina a incumbência de levar a mensagem até o correio, em Santo Antônio do Monte, pois eu estaria em viagem à capital mineira.

       A carta foi colocada no correio no dia 6 de janeiro e, quando achávamos que ela há muito estava nas mãos da destinatária, eis que o telefone toca. Era “Docarmo” que, com a voz embargada e profundamente emocionada, me dizia que a correspondência lhe havia chegado, após extraordinária e inexplicável demora, exatamente no dia 25 de janeiro de 2015, no dia em que se completavam 15 anos do passamento de Tia Francisquinha, que de maneira incompreensível, aos olhos de nosso entendimento de prisioneiros da sedução material, agiu com o objetivo de estabelecer contato e, ao mesmo tempo, provar-nos que ainda se mantêm fortalecidos os laços que a unem ao núcleo familiar em que ela semeou seu amor e sua energia como ser humano.

       Tomo a liberdade de lhes expor o depoimento que, com os olhos banhados em rios de saudade, escrevi sobre minha Tia Francisquinha, num período terrestre de insensibilidade e indiferença social, gerando um momento no qual, em muitos casos, os mortos nos falam mais que os que se nos apresentam fria e supostamente vivos:

       TIA FRANCISQUINHA é exemplo ainda vivo

      Francisca Alves da Silva, ser humano superlativo que marcou minha vida sob a grandeza do carinhoso diminutivo TIA FRANCISQUINHA, foi mulher à frente de seu tempo, deixando-nos indeléveis exemplos na educação da cidade de Floriano, ao doar sua competência e capacidade de trabalho à formação de alunos, que mais que conhecimento receberam, por intermédio de sua labuta na atividade educacional, lições de dignidade, amor e respeito pelo próximo.

       Quando minha querida TIA FRANCISQUINHA faleceu, no dia 25 de janeiro de 2000, perdi uma amiga, leitora e incentivadora de meu trabalho literário, que tinha nela uma observadora atenta e uma conselheira. TIA FRANCISQUINHA é daquelas pessoas, que mesmo no plano invisível da espiritualidade, mantém-se permanentemente entre nós, através da energia das ações que praticou em vida, num constante desejo de contribuir para a construção de um mundo mais justo e menos desigual.

       TIA FRANCISQUINHA, que habita as planícies mais ensolaradas do meu coração, é exemplo de cidadania, uma célula de luz e horizonte da gente de Floriano, que deve orgulhar-se de ter abrigado em sua sociedade uma pessoa da qualidade e dimensão intelectual de Francisca Alves da Silva, DONA FRANCISQUINHA, que fez de sua casa um lar cristão de portas abertas para receber os amigos, que ali se juntavam sob as asas da sabedoria de sua palavra e seu sorriso acolhedor, ao feitio de radiante manhã de primavera – assim era (e foi) minha querida TIA FRANCISQUINHA!

     Carlos Lúcio Gontijo

    Poeta, escritor e jornalista

   www.carlosluciogontijo.jor.br

   27 de janeiro de 2015.