Carlos Lúcio Gontijo    

             Sou morada e canteiro do espírito que me habita, não tenho a sua clarividência nem o seu predicado de antever o futuro e, muitas vezes, me deparo com acontecimentos que, num primeiro momento, me tiram o chão, como é o caso da morte de entes amados.

          Neste sábado, dia 11 de julho de 2015, depois de ter chegado a Belo Horizonte, Brasília de Minas, Tocantins/MG, Santo Antônio do Monte/e Distrito de São José dos Rosas, Arcos, Capim Branco, Pedra do Indaiá, Bom Despacho), foi a vez de nos dirigirmos a Divinópolis,  município no qual nasceu o  meu saudoso genro e amigo Ronaldo José Quirino, que como todos os meus companheiros mais afetivos foi estreitando os laços comigo à medida que me ajudava na divulgação e se envolvia com a minha atividade literária – o próprio ar que respiro. Os amigos que detectam essa minha essência e, realmente, gostam de mim, procuram na medida do possível, marcar presença ao meu lado, dando-me abrigo sob o guarda-chuva protetor da amizade.

          Ronaldo havia falecido no dia 22 de junho e, como minha esposa Nina ficou em Contagem para fazer companhia e apoiar a filha Amanda e a neta Luara, eu retornei a Santo Antônio do Monte, onde me pus a curtir a angústia do falecimento do amigo querido, solitariamente, pelos cantos da casa, como costumava dizer minha saudosa mãe Betty.

          E assim, entre uma umidade e outra no olhar, resolvi estabelecer contato, sem qualquer expectativa, com gente conhecida de Divinópolis, tentando um lançamento do “Simão”, cuja solenidade consistiria na entrega gratuita de livros a escolas públicas do ensino fundamental, que no caso de Divinópolis seriam 40, com cada unidade escolar recebendo um pacote com dez exemplares, sob a intenção de possibilitar o trabalho dos professores na sala de aula, pois dessa maneira muitos alunos podem ler o livro num mesmo tempo e instante.

          Pois bem, para minha surpresa e satisfação a Livraria e Papelaria CECRI, na pessoa de Ademílson Cunha, abraçou prontamente a ideia, abrindo suas dependências para receber as escolas interessadas na obtenção gratuita da obra infantil “O Guarda-chuva do Simão”, além de cuidar da organização e difusão do evento. Lembrei, envolto em horizontes opacos de tristeza, que há muitos dias, talvez meses, eu havia comentado com o Ronaldo sobre o meu desejo de levar o “Simão” até Divinópolis e ele, que tomou gosto em me acompanhar no idealismo literário viajor, me disse: “Eu vou lá com você, pois se trata de minha terra!”

          Quis o destino que o Ronaldo partisse rumo aos mistérios do Paraíso prometido fora do combinado, arremessando Nina, Luara e eu em imenso mar de recordações, uma vez que tivemos a companhia dele quando viajamos ao município de Capim Branco, onde fomos tão bem recebidos que ele vivia falando em voltar, para experimentar a deliciosa iguaria de um frango caipira com o qual a professora aposentada Marisa Santos, carinhosamente, nos acenou em caso de nosso retorno à cidade.

          Hoje, ao me dirigir a Divinópolis, o filme da viagem a Capim Branco me vinha constantemente à lembrança: como nos divertimos e fomos felizes – rimos e mergulhamos o tempo todo nas profundas e tépidas águas do calor humano! Todavia, tudo nesta vida material é emprestado, não nos pertence e muda de repente. Estou tateando ainda, sou novamente aprendiz, como ocorre toda vez que alguém de minha estima parte deste mundo e eu me vejo perante a lei da realidade imperceptível à ignorância espiritual dos meus olhos.

          Porém, posso garantir-lhes que o Ronaldo não faltou. Ou seja, ao lado de meus amigos de Santo Antônio do Monte, Marlúcia Resende Batista, Otaviano José Coimbra Batista (o popular maestro “Vai”) e seu filho Danilo, que se dispôs a fotografar e gravar a solenidade, ele também estava lá e, como bom ouvinte, psicólogo e competente professor que foi durante sua passagem pelo planeta Terra, cobrava-me ânimo e plena realização de minha própria pregação e crença de que, diante da perda de pessoa de nossa amizade e convivência, só nos resta homenageá-la vivendo dobrado – tanto por ela quanto pela gente mesmo, em meio ao divino palco da graça da vida, onde o show da existência terrena de cada um de nós tem que continuar!

       E Divinópolis foi show. Iniciamos inclusive tratativas para o lançamento de meu 18º livro, “Tempo impresso”, na próxima bienal do livro a ser realizada na cidade, pois a nova obra requer tratamento diferenciado, por ter enredo direcionado a público mais específico (jornalistas, estudantes de comunicação e leitores interessados em assunto relativo à imprensa), num grande esforço editorial independente para trazer ao lume da impressão o engenho de 400 páginas.

          Carlos Lúcio Gontijo

          Poeta, escritor e jornalista

         www.carlosluciogontijo.jor.br

        11 de julho de 2015.