Carlos Lúcio Gontijo                                   

           Se agíssemos com a mesma coragem com que partimos para cima das questões distantes da nossa rua, da nossa cidade e da comunidade em que vivemos, talvez pudéssemos construir um Brasil melhor. Se cuidássemos mais de nossos atos, se fôssemos mais fiscais de nós mesmos que da vida alheia, talvez a vida em sociedade se banhasse em camaradagem, sinceridade e na plenitude do amor ao próximo apregoado por Jesus Cristo.

         Entretanto, o que observamos é a ampliação do compadrio entre os detentores de mando político, senhores do capital e expoentes do jogo de influência nos municípios, onde se inicia o cultivo das sementes da falcatrua e dos desmandos da corrupção que explodem, seletivamente, nas manchetes dos jornais, que também defendem seus interesses. E, assim, cada cidadão, cada pessoa, cada político, cada grupo e cada ajuntamento no formato de quadrilha vão cometendo os seus deslizes, apostando na impunidade ou mesmo avaliando o custo benefício, diante de condenações brandas e, portanto, compensadoras segundo a ótica moral que impera no meio ambiente da bandidagem, no qual malandro e presidiário rico é tratado com reverência de herói.

       Em todo e qualquer município brasileiro, podemos assistir ao desmatamento, à destruição de nascentes, à autorização de loteamentos em áreas de preservação ambiental ou estratégicas para o abastecimento presente ou futuro da cidade. Todavia, é muito raro o combate a tais imposturas, pois impera o respeito à vizinhança e à amizade ainda que insincera, do tipo Tom e Jerry – a regra é respeitar os princípios da convivência em comunidade, mesmo que tal atitude leve a uma complexa e indefensável promiscuidade, na qual o mal supera o bem, que a tudo assiste em silêncio.

        No estado de Minas Gerais, onde as mineradoras movem muito mais montanhas que a fé do povo mineiro, deparamo-nos com a insana depredação dos cerrados e, em consequência, uma crise de abastecimento em vários municípios, jogando por terra a tese antiga que nos outorgava o título de “caixa-d’água do Brasil”, com o cada vez mais assoreado Rio São Francisco se nos apresentando como a expressão máxima de abundância de nascentes, que se traduziam em rico manancial hídrico.  

       Contraditoriamente, ao passo que os municípios se encontram mergulhados em administrações ruins, câmaras de vereadores inoperantes, transformando os municípios, células mais importantes da nação, pois são neles que moram os cidadãos, em matriz de toda a corrupção comprometedora do presente e do futuro da gente brasileira, uma vez que o mesmo cidadão – que convive (e aceita, com a meiguice de gatinho) o esgoto fétido da corrupção à sua porta – sobe nas tamancas (ruge ao feitio de leão), bradando nas redes sociais virtuais todo o repertório verbal de seu radicalismo contra o governo federal, sobre o qual deságuam em proporções gigantescas as mazelas administrativas do Brasil inteiro, que solicita antes de tudo e qualquer coisa uma reforma humana, sem a qual pouco ou nada valerá, por exemplo, uma reforma política, fadada a ser imediatamente maculada pela cultura do levar vantagem em tudo, pelo fisiologismo político, pelos pendores do egoísmo e do individualismo que norteiam os atos, os procedimentos e o comportamento de nossa sociedade.

          Carlos Lúcio Gontijo

         Poeta, escritor e jornalista

        www.carlosluciogontijo.jor.br

       03 de agosto de 2015.