Carlos Lúcio Gontijo

Em matéria repercutida pelo Observatório da Imprensa, Esdras do Nascimento escreveu: “Reportagem da Folha de S.Paulo enviou, pelo correio, a seis editoras uma novela de Machado de Assis, pouco conhecida, intitulada Casa Velha. Como autor, constava um nome desconhecido. Os originais, impressos em computador, estavam encadernados com espirais, o endereço do autor era um hotmail do correio eletrônico, criado especificamente para isso. Seis meses depois, a Companhia das Letras, a Objetiva e a Rocco responderam dizendo que não tinham interesse no livro. A Record, a L&PM e a Ediouro não responderam nem acusaram recebimento. Nenhuma delas reconheceu que se tratava de um texto de Machado de Assis”.

       Essa recente constatação jornalística não é nova, mas nos esclarece que nada mudou no mercado do livro no Brasil, se é que podemos usar o termo no tocante ao tratamento oficial que se destina aos livros em nosso país. Há muitos anos, venho dizendo que o Brasil não tem editoras. O que existe são gráficas que cobram caro dos autores pela impressão e aluguel de seus "selos". De certa maneira, uns mais outros menos, todos os escritores brasileiros pagam para editar suas obras. Somos uma nação marcada pela literatura independente – custeada por quem é, idealisticamente, impelido à árdua tarefa de escrever uma obra literária.

       Dia desses, estava em Contagem e recusei oferta de pessoa politicamente influente, que me propôs a inserção do meu inédito 18º livro, intitulado ‘Tempo Impresso’, na famigerada Lei Rouanet, dando-me direito à captação de recursos junto às empresas, situação que nem de longe delineia uma política do Estado brasileiro destinada a incentivar nossa cultura, que é colocada na mão da decisão empresarial, um agente voltado à busca de favorecimento à sua atividade industrial/comercial e, por isso mesmo, disposto a apoiar projetos que redundem em clara exposição da logomarca de seus produtos perante a mídia e a população.

       Raramente então, dentro de quadro conjuntural tão disforme, poderemos assistir à abertura de espaço ao efetivo incremento da área literária, num país de poucos leitores como o nosso, levando o ‘candidato’ a investidor cultural ao patrocínio de nomes consagrados ou, provavelmente, à opção por segmentos culturais descartáveis, portadores de apelo comercial imediatista e, popularmente, mais palatáveis – nada de compromisso com cultura de cunho reflexivo, que não tem lugar em meio à plena superioridade do lazer prometido pela indústria do entretenimento, para a qual a literatura não passa de pedra no caminho.

       À primeira vista, os incautos e desavisados podem imaginar que a existência de uma estrutura editorial incapaz de se interessar ou detectar o valor da luz contida em texto literário produzido pelo maior escritor brasileiro (Machado de Assis) seja problema exclusivo de quem se mete a escrever, mas o resultado de toda essa fragilidade editorial se encontra estampado no grande número de originais engavetados, como se ainda vivêssemos em período de autoritarismo e censura, gerando panorama propício à proliferação da erva daninha da falta de leitura de nossa população, afetando inclusive os jornais, que viraram tabloides de baixo conteúdo informativo, com preferência por linha editorial com menos texto e mais fotos, como se assim pudessem ganhar a competição com os veículos de comunicação alicerçados, fundamentalmente, na imagem, a exemplo da televisão e da própria internet. 

       Nossa imprensa escrita, talvez pelo conhecimento do baixo índice de leitores, sequer tentou a adoção de opiniões mais densas e textos mais encorpados como contraponto ao fortalecimento da ignorância reinante, que como dizia minha saudosa avó Venina Gomes, professora que dá nome a escola de ensino fundamental no município de Moema/MG, é explicitamente atrevida e, ao mesmo tempo, alvo fácil de manobra política, tanto para o bem quanto para o mal.

       Se de um ângulo o episódio envolvendo o nome de Machado de Assis – que teve a sua novela Casa Velha rejeitada pelas notáveis figuras que integram as comissões ou conselhos editoriais das editoras – serve de consolo aos chamados autores independentes do nosso tempo, que nunca obtiveram sucesso ao passar pelo crivo daqueles nobres analistas literários, compete-nos também visualizar a questão como incentivadora dos que, na condição de escribas menores, trilham sua caminhada de maneira independente, em vez de se desgastar com editoras que não apostam em obra alguma ou, ainda, receber licença para captar recursos junto a empresas que guiam seus patrocínios de olho no gosto duvidoso de quem não lê sequer um livro por ano, formando o círculo vicioso de não se ter grande número de leitores porque não se investe adequadamente no mercado de livro e, por outro lado, poder sempre se desculpar com a resposta pronta de que nada se faz pelo simples fato de não existirem leitores em quantidade suficiente.

      Na ausência de propagação da cultura, coisa alguma se salva: a população não tem gosto pela leitura; bibliotecas, salas de cinema e teatros se fecham por absoluta falta de público, ao passo que símbolos históricos de nosso patrimônio são demolidos insensivelmente, como se deu, em realidade metafórica, no caso das editoras que propugnaram pela não impressão da novela Casa Velha, de autoria de Machado de Assis, passando à sociedade brasileira, com o seu desleixo e indiferença, o triste recado de que, literária e literalmente, o casarão histórico de nosso desenvolvimento cultural ruiu, pela fragorosa falta de ação nos campos da conscientização, da restauração e da preservação.

     Carlos Lúcio Gontijo

     Poeta, escritor e jornalista

    www.carlosluciogontijo.jor.br

   24 de agosto de 2015.