Carlos Lúcio Gontijo

          Não consigo sequer imaginar o mundo que será encontrado por meus netos diante do avanço do individualismo e do radicalismo, que sabidamente nunca representaram (nem representam) solução para qualquer questão de cunho social. Já faz tempo que a era da competição se esgotou, convidando-nos a entrar no tempo novo da cooperação e do compartilhamento.

          Desde o ano de 1977, produzi 18 livros e duas segundas edições. Por ser um trabalho literário independente, pude montar um site com toda a minha obra, disponibilizando aos navegantes da internet meus livros, artigos jornalísticos, fotos, poemas em PPS, vídeos, poemas musicados etc., que está no ar desde 5 de junho de 2005.

          Preocupado com o acervo literário construído, passei a observar se haveria alguma entidade séria que pudesse interessar-se pela guarda de minha obra, após o cumprimento de minha missão no plano da vida terrena e, lamentavelmente, até esta data nada detectei capaz de me proporcionar alguma tranquilidade, ainda que mínima, nesse nosso Brasil entregue à falta de memória e ao esquecimento que o descaso oficial em relação à cultura impõe à nossa gente.

          Preocupa-me nos dias de hoje o avanço do forte apelo promocional da indústria de entretenimento, que colocou a cultura de raiz como segmento distante da oferta de lazer voltado exclusivamente para a diversão em seu estado puro. Ou seja, qualquer produto cultural que leve o ser humano à reflexão, retirando a pessoa de sua área de conforto, está fora da cesta básica da política cultural empresarial, que através da Lei Rouanet tem o controle do que pode ser alvo de patrocínio ou não, segundo os interesses do capital, que obviamente deseja a fácil (e rápida) obtenção de extensa visualização de suas logomarcas e produtos pelo grande público. Daí a exigência de investimento em projetos culturais palatáveis, geralmente descartáveis, como se fossem uma espécie de brinquedo logo esquecido pelas crianças que a ele acessam.

          Os autores independentes vivem o tormento da preocupação com o futuro de seus trabalhos, aos quais são visceralmente ligados, pois sabem que sua palavra os tem como principais e, na maioria das vezes, únicos divulgadores. Como exemplo, gosto de citar o poema “Minha BH interior”, ao qual passei a divulgar assim que o criei, pois vi nele determinada importância e significado para os belo-horizontinos e todos os mineiros que amam a sua capital – Belo Horizonte.

          Pois bem, além de editar aquele poema em dois de meus livros, passei a postá-lo em mensagens na internet e, assim, os versos foram ganhando espaço, até o ponto de ser usado, espontaneamente e sem qualquer jogo de influência, em campanha publicitária da Associação Brasileira de Agências de Viagem (ABAV-MG), por ocasião dos 116 anos de BH; fixado em painel de fotos antigas do estabelecimento comercial “Espeto & Prosa” e declamado pelo jornalista José Lino Souza Barros, no programa Rádio Vivo da Rádio Itatiaia, em 2014, quando a capital de todos os mineiros fez 117 anos.

          Não possuem os autores independentes a chancela de um selo editorial, que lhes possa garantir certa perspectiva de futuro, uma vez que os proprietários das editoras têm herdeiros interessados, se não falirem pela escassez de leitores, na ativa conservação e em permanente evidência os seus autores. Porém, a clareza dessa realidade conduz-me ao pensamento do enorme vácuo que será aberto a partir do momento em que eu não mais estiver neste mundo, para o exercício desse modesto, solitário e cotidiano empenho na divulgação da arte da palavra escrita produzida por mim, na qual mergulhei idealística e profundamente por toda a minha vida, dedicando-me ao máximo, mesmo reconhecendo que meu pensamento, minhas opiniões, meus versos, meus romances, imagens e personagens não passam de tristes letras fadadas ao desamparo da orfandade.

         Carlos Lúcio Gontijo

         Poeta, escritor e jornalista

        www.carlosluciogontijo.jor.br

       09 de setembro de 2015.