Carlos Lúcio Gontijo

                               

          Os espaços de divulgação cultural são poucos e, ainda assim, costumam não durar muito, pois exigem daqueles que os administram elevada dose de idealismo, desprendimento e persistência.  Além do mais, o meio cultual é permeado de muita vaidade, com a maioria dos autores se sentindo criadores de constantes obras primas, o que os tornam incapazes de qualquer exercício de avaliação distante do egocentrismo.

          Nos últimos anos, tenho me declinado a convites para integrar academias de letras, pois o que pude observar é que as agremiações culturais terminam dominadas por grupos hegemônicos, que as usam segundo os seus interesses, invariavelmente superiores aos anseios da maioria, que em muitos casos jamais aparece nas fotos e pouco é levada em consideração, com prevalência do estilo de produção poética e literária dos que tomam em suas mãos o comando acadêmico.

          O ambiente cultural está repleto de empavonados donos da verdade, que não apenas afastam os componentes mais humildes, os quais tudo o que esperavam era a obtenção de algum apoio e um palco, mesmo que pequeno, para apresentar o seu trabalho cultural. No entanto, rapidamente descobrem estar metidos em ninho de cobras e se veem sob o risco de ser dominados pelo desânimo e amplo desestímulo, semeados inesperadamente por aqueles de quem esperavam palavras e ações de incentivo.

          Na minha caixa de correspondência eletrônica chegam inúmeros convites para que eu participe de coletâneas de toda ordem, todo tipo e todo lugar; disponibilização de estandes em feiras e bienais do livro, onde os autores ficam num canto assistindo ao desenrolar de uma festa que faz do produto impresso um mero detalhe cercado de “celebridades” e os mais variados atrativos da indústria do entretenimento por todos os lados; gráficas oferecendo serviço de impressão, e por aí afora, como se eu – um simples e esforçado escritor e poeta independente – tivesse recursos financeiros para atender tamanha fileira de chamamentos.

          Não são muitos os horizontes que se abrem à luz cultural e se mantêm coerentes aos seus princípios e filosofia de trabalho e, dentre os feixes de claridade e esperança que se me apresentaram estão as revistas luso-brasileiras “Fênix” e “eisFluências”, veículos virtuais de divulgação da cultura lusófona, que têm na figura da poetisa portuguesa Carmo Vasconcelos uma grande mentora, a quem acompanho há muitos anos. Meu contentamento, minha alegria e extrema confiança em seu comportamento retilíneo mergulhado em sensibilidade, levaram-me à decisão de convidá-la para deixar sua palavra na abertura de livro que pretendo lançar neste ano (2016), sob o título de “Tempo impresso”, uma obra de 400 páginas.

          Ser tratado democraticamente e sem contornos estranhos, ou sinais de menosprezo e exclusão, é um verdadeiro achado nos dias de hoje, uma vez que o natural é a submissão a pretensos donos da palavra final. Os pendores para aparecer (como se fosse iluminada vitrine na avenida) a qualquer custo é constatação cada vez mais frequente. Outro dia, comecei a ler o artigo de um professor de português, que num repente me veio com os famosos versos de Carlos Drummond de Andrade: “No meio do caminho tinha uma pedra/ Tinha uma pedra no meio do caminho”. Primeiro fez um elogio, na base do “isto é pura poesia”, para depois apontar um deslize, dizendo que o verbo existir não pode ser substituído pelo verbo ter e que o correto seria “no meio do caminho havia uma pedra”. Como temo gente mais realista que o rei, não me fiz de rogado e abandonei a leitura do texto, implorando aos céus para que poeta algum, desavisadamente, caísse na bobagem de entregar um livro aos cuidados de tão destemperado sábio purista – domador da ciência do perfeito vácuo.

          Na condição de autor independente (com uma produção de 17 títulos), não posso perder meu tempo com propostas inviáveis ou inócuas, ainda mais quando projeto completar 40 anos de literatura em 2017 com o lançamento do 20º livro. A meta é difícil, mas eu a perseguirei com todo o empenho e afinco, auxiliado pelo estímulo indispensável dos bons amigos, que graças a Deus existem em meio a este mundo envolvido em tanto jogo de interesse, tanta ingratidão e tanto falso brilhante exposto como se pedra preciosa fosse.

          Carlos Lúcio Gontijo

          Poeta, escritor e jornalista

        www.carlosluciogontijo.jor.br

       3 de fevereiro de 2016