Carlos Lúcio Gontijo

          Ao lançarmos o nosso 18º livro, podemos nos considerar bem-sucedidos, pois habitamos um país onde 40% da população não compram livros e 30% nunca os compraram uma vez sequer na vida. Talvez, todo esse déficit no tocante à leitura explique, por exemplo, os nossos descalabros nas áreas social, econômica, política e, principalmente, na educacional, que ao se constituir desatrelada da cultura especializou-se em diplomar doutores ricos em conteúdo didático e bastante pobres, no caso ignorantes, em relação à sensibilidade, amor ao próximo e sentimento comunitário, uma vez que se acham mergulhados em exacerbado hedonismo.

          Estranhamente, se nossas elites do capital se recusam o estabelecimento de projetos que visem a um mínimo de diminuição da desigualdade social que nos cerca, terminaram por aceitar, aos moldes de nossos morros que preferem a tutela dos agentes do tráfico de drogas e armas à truculência das ações oficiais de governo, a tese do “bandido preferido” – aquele malfeitor que rouba, mas faz e, ao mesmo tempo, permite a roubalheira.

          Não deixamos de nos contrariar nem denunciar a conjuntura anômala, mas temos plena consciência de que é esse o quadro em que vivemos, no qual a nossa literatura e nossa poesia têm que encontrar forças para germinar e gerar seus frutos, destinados a poucos consumidores, mas que graças a Deus ainda existem.

        Temos aqui que agradecer aos nossos amigos e admiradores do nosso trabalho literário, da cidade de Santo Antônio do Monte, na qual realizamos o lançamento do livro “Tempo impresso”, no dia 11 de maio de 2016, lotando o “CultBar”, local que escolhemos para realizar o evento. Ainda ecoa em nosso coração a fala de nossa primeira professora e amiga, Clélia Aparecida Souto e Couto, que umedeceu nossos olhos. Nem sabemos como lhes agradecer, uma vez que não encontramos palavras para bem definirem o nosso contentamento, exatamente por termos consciência das dificuldades que giram em torno do mundo das letras.

          Para os que não têm muito conhecimento sobre o drama da comercialização de livros no Brasil, passamos a informação de que autor renomado, com toda pompa e circunstância, quando vende muito livro em lançamento, ainda que em grande centro, não passa de 50/60 exemplares. Entretanto, é bom que se diga: não se mede valor de livro algum pelo seu sucesso comercial e, em muitos casos, a realidade é inversamente proporcional a tal método ignaro de avaliação.

          Há 39 anos (em 1977), quando editamos o nosso primeiro livro, desprovido de qualquer apoio, sem divulgação nem noite de autógrafos, contamos tão-somente com o apoio de alguns bons amigos e a compreensão de minha mãe, pois não tinha à época nem emprego e havia assumido promissórias a serem pagas junto a uma gráfica. Minha mãe e eu passamos a vender livros de porta em porta e, assim, outras pessoas começaram a nos auxiliar na missão, cometendo o verdadeiro milagre de o telefone e a campainha de nossa casa no Bairro Senhor Bom Jesus, em Belo Horizonte, começarem a tocar e a edição dos 1.500 livros se esgotar rapidamente.

          Naquele tempo, lembramo-nos de ter feito à minha mãe Betty a promessa de que, ao completar 40 anos de carreira literária, estaríamos com 20 livros editados. Pois bem, no ano que vem (2017) chegaremos à sonhada marca. Estamos com um livro infantil (diagramado e ilustrado pelo mais constante e fiel parceiro, Nivaldo Marques Martins), então nossa 19ª obra; e projetamos dar início à lavra de mais um romance intitulado “Desmemória de horizonte”, que será o nosso 20º livro, que com toda a certeza contará com o apoio de nosso principal patrocinador – o “paitrocinador” José Carlos Gontijo, que completa 92 anos no dia 19 de julho próximo e que nos últimos tempos tem sido a única pessoa a dividir conosco os custos materiais deste nosso sonho esvoaçante e, muitas vezes, quebradiço diante das intempéries e mentes petrificadas deste mundo.

          Por fim, tomamos a liberdade de trazer a público um e-mail que recebemos de amiga e leitora que mora na França e nos adquiriu dois exemplares de nosso livro recém-editado. Vamos então ao e-mail de Leila Rocha Boulet-Gercourt.

 

          “Não tem como deixar de admirar sua obra, e você merece todo o reconhecimento! Você verá que será um sucesso seu lançamento, embora eu imagine que os escritores e poetas, para lançarem um livro impresso, hoje, nessa época da geração de ‘iphones’, têm de ter muita determinação e amor ao que fazem.

          Eu conheci seus poemas graças à Lilás (minha irmã), que sempre me presenteava com seus livros e, agora, faço como ela presenteando seu filho e nora.

          Muito obrigada pelo presente do livro infantil. Este, eu vou guardar para meu primeiro netinho de sangue, que vai nascer em fins de dezembro.

          Eu lhe desejo muito sucesso! Você merece!”

         

          Carlos Lúcio Gontijo

          Poeta, escritor e jornalista

         www.carlosluciogontijo.jor.br

         09 de junho de 2016.