Carlos Lúcio Gontijo       

       Por ocasião do lançamento do livro “Tempo impresso” em Belo Horizonte, no dia 4 de julho de 2016, tive a felicidade de conhecer pessoalmente o jovem jornalista Vinícius Fernandes Cardoso, que frequenta com maestria as trilhas da poesia e do jornalismo na cidade de Contagem, na qual vivi durante muitos anos de minha vida.

       O talentoso Vinícius, além de escrever um artigo generoso e espontâneo sobre o evento cultural em que apresentei meu 18º livro, tomou a iniciativa de me passar um envelope com alguns de seus registros poéticos e jornalísticos, que me remeteram aos tempos em que tinha a idade dele. Seus versos fortes e comprometidos com a construção de um mundo melhor alegraram o meu coração, enchendo-me de esperança em relação ao futuro, no qual pessoas como o Vinícius Fernandes Cardoso estarão dispostas a lutar contra os desmandos de gente comprometida consigo mesma e incapaz de visualizar a condição da sociedade como um todo.

       Assim canta o Vinícius no poema Tempo perdido: “Não adianta fingir o que não sou,/ eu que ando sendo o que não sou,/ perdendo tempo com teimosias,/ sendo cordato com aleivosias,/ eu que nasci para o combate/ contra os pregos e os folgados,/ contra os sem virtude e sem caráter”. Eis aí a mais pura verdade do panorama social em que vivemos, no qual alguns malfeitores avançam sob o silêncio letárgico da maioria dos brasileiros.

       Depois, na prosa poética “Oração de mim mesmo”, deparo com esta beleza de frase: “Eu queria escrever um poema que me fizesse companhia e que não me julgasse certo ou errado, mas que me consolasse como um cafuné de mãe”. Intuições de cunho literário dessa magnitude encaminharam o jovem Vinícius ao Jornal Regional de Contagem, onde ele marca destacada presença como responsável por uma página destinada à cultura, o que nos dias de hoje é uma raridade nos veículos impressos brasileiros, que quase sempre se nos apresentam fechados à publicação de conteúdos capazes de conduzir o leitor à reflexão e à conscientização em relação ao outro – ao próximo, que deve ser alvo de nosso amor e respeito.

       A forma honesta com que o Vinícius Fernandes Cardoso exercita o seu dom de artista da palavra escrita me remete ao esforço do saudoso amigo Otaviano José Coimbra Batista, o querido maestro “Vai”, para manter em atividade a centenária banda Lira Monsenhor Otaviano, em Santo Antônio do Monte, e ao mesmo tempo dedicar-se a aulas de música para jovens e crianças, às quais via como garantia de que a banda estará presente no futuro, abrilhantando solenidades culturais e religiosas. Com toda a certeza, mesmo sem muita consciência a respeito do trabalho desenvolvido pelo maestro Vai, santo-antoniense algum imagina passar uma semana santa sem o som da velha e insubstituível Lira Monsenhor Otaviano!

       Em tudo na vida a gente termina descobrindo um lado bom o suficiente para justificar apuros e momentos difíceis. Minha curta passagem pela Secretaria de Cultura de Santo Antônio do Monte possibilitou-me o estreitamento da amizade com o maestro Vai, que passou a declamar com inigualável emoção o poema “Sangue montense”, valorizando como ninguém os versos de minha autoria, aos quais resolveu musicar, marcando e eternizando com essa parceria a nossa amizade.

      Não existe nada nesta vida que não nos exija dedicação e persistência, para germinar e prosperar. Quando o Vinícius Fernandes saiu de Contagem para prestigiar o lançamento de livro de minha autoria em Belo Horizonte, levando-me mostras de sua arte de escrever e, completando o seu desprendimento, lavra um artigo a respeito do evento, que cuidei postar com destaque em meu site; quando eu e o maestro “Vai” encontramo-nos na labuta cultural em Santo Antônio do Monte optamos por apoiar um ao outro e providenciar o cultivo da amizade, em meio a diálogos, pão de queijo, café, um churrasquinho, cerveja gelada e alguma trilha sonora no ambiente, estávamos semeando eternidade em nossa memória, que somente alcança frutificação, avança e caminha no chão de nossa alma se alimentada pelo combustível da verdadeira amizade.

       Carlos Lúcio Gontijo

       Poeta, escritor e jornalista

      www.carlosluciogontijo.jor.br

      02 de agosto de 2016.