Carlos Lúcio Gontijo

       O Brasil se encontra deitado num divã esplêndido imaginário onde toma conhecimento, como se não soubesse, de toda a corrupção endêmica que sempre o dominou, desde os rincões mais distantes, passando por pequenas cidades até os grandes centros.

       Todas as cidades têm suas castas privilegiadas, seus donos. Pessoas que se julgam acima das demais e controlam os cargos públicos de maior importância, ainda que não tenham importância alguma, transformando-os em componentes de interminável jogo de influência.

       Muitos são os municípios que têm o Executivo Municipal como principal empregador e, logicamente, qualquer espécie de comando sobre a máquina administrativa é sinônimo de poder e garantia de ganhos para familiares, amigos e companheiros, que se ajeitam em concursos ou se eternizam em recrutamentos a cada gestão, com a mais ampla e completa naturalidade, como se tivessem sido contemplados com divino poder dos reis.

       Como as desgraças andam juntas, a conjuntura política antidemocrática conta com a conivência dos chamados poderes da República e com o silêncio remunerado tanto da grande imprensa quanto dos pequenos veículos de comunicação, que mergulhados em pequenez tornam-se aliados dos senhores de engenhos e capital, auxiliando-os na elevação de seus desejos e caprichos a níveis bastante superiores ao de todo clamor coletivo.

       Não haverá combate bem-sucedido à corrupção enquanto a falta de ética e descompromisso com a sociedade for uma norma velada, pela qual a maioria dos agentes públicos se permite guiar. A dura realidade nos conduz à certeza de que, sem uma reforma humana, semeada pela democratização da educação de qualidade e facilitação do acesso à cultura, não haverá como conseguirmos novas práticas políticas, que favoreçam ao surgimento de horizontes sociais efetivamente ardendo em luminosidade justa.

       Pelo que se pode ser previsto, as ondas de escândalos que atualmente nos assolam (e a momentânea indignação da sociedade) cairão na vala comum do tradicional esquecimento, ao passo que os profissionais da corrupção retomarão seus afazeres, redimensionando (e aprimorando) as suas maneiras de surrupiar os cofres públicos, desde os menores municípios até o Governo Federal, como se não tivesse acontecido nada; se é que realmente tenha havido alguma coisa além de um confronto casual entre poderosos, que em breve superarão suas desavenças em prol da manutenção da secular exploração da gente brasileira – os maltratados e perseguidos cidadãos!

       Carlos Lúcio Gontijo

       Poeta, escritor e jornalista

       www.carlosluciogontijo.jor.br

        1º de setembro de 2017.