Carlos Lúcio Gontijo

          A baixa mentalidade é difícil de ser extirpada do contexto social, permanecendo ativa até mesmo em pessoas com extenso acesso à cultura e a níveis razoáveis de escolaridade, pois a mediocridade lhes aflora toda vez em que se veem diante da necessidade de alguma decisão.

          Não resta a menor dúvida de que esboroa a olhos vistos o histórico comportamento cordial e cristão dos brasileiros à medida que o confronto entre posicionamentos políticos se estabeleceu com o advento das redes sociais na internet, levando os cidadãos a lutar por seus espaços, ocorrência determinante na quebra da convivência amistosa entre desiguais que se relacionavam sem a necessidade de dar visibilidade ao seu pensamento ideológico como parte integrante de sua identidade.

          Observa-se agora com clareza quão tênue é a nossa democracia, incapaz de aceitar a efervescência do diálogo diversificado em torno das questões, das quais advêm múltiplas opiniões, que pela falta de prática democrática transformam-se em fonte de agressão, rebaixando o processo em mera incontinência verbal, com cada interlocutor flertando com algum projeto ditatorial, como forma de impor o seu pensamento, fazendo-o hegemônico.

          Assim, o resultado mais comum do diálogo que vira discussão enfurecida é o palavrão ou até mesmo a luta física, como forma de apressar o fim da contenda ideológica marcada pela ausência de conhecimento e boa informação sobre as teses defendidas, que se perdem em insanas e indefensáveis ofensas morais, muitas vezes desaguando no deprimente noticiário policial, para inteira vergonha dos litigantes.

          Numa rápida visão dos horizontes que nos cercam, podemos constatar a precarização de praticamente tudo. Dependendo de quem, por exemplo, esteja sendo julgado pela Justiça, o juiz lança mão da tese do domínio de fato e das convicções subjetivas para condenar; enquanto a outros concede o justo benefício da presunção de inocência por falta de provas contundentes.

          Ao bem da verdade é bom que se diga que nem a cultura de raiz e reflexão é mais aceita pela supremacia da visão da indústria de entretenimento, que a tem como pedra no caminho do lazer pelo lazer, que solicita trilha sonora vazia e opiácea, dando asas à ignorância – que está integrada à moda cotidiana, com toda pompa e circunstância.

          Quase nada hoje é pra valer. O cidadão que grita contra a balbúrdia reinante nos governos estaduais e em escala federal, estranha e inexplicavelmente, fecha os olhos para o que acontece em sua cidade, aceitando e muitas vezes anuindo-se aos desmandos municipais, que são a matriz de todo o descalabro administrativo brasileiro.

          Infelizmente, os fatos mais recentes nos provam que estamos descendo ladeira no tocante à efetiva consciência social, como se deu na greve dos caminhoneiros em prol da diminuição do preço do óleo diesel, enquanto de outro lado os demais motoristas corriam aos postos de combustíveis, aceitando a cobrança de preços extorsivos, para alegria do governo que se viu incentivado a majorar ainda mais a gasolina.

         Dessa maneira, temos a baixa mentalidade nos fazendo cada vez mais uma gente menor nas mãos de uma pequena grande mídia representante de atávicos poderes oligárquicos, que trabalha dia e noite pela desinformação de toda a nação, a fim de deixar a população afeita, amorfa e disposta a servir de massa de manobra de um governo comandado por velhos senhores do âmbito político, que têm na condução da administração pública o banco de sangue alimentador de suas vidas, onde o povo não chega a ser sequer um simples detalhe, não passando de mero legitimador de regimes autoritários ungidos pelas urnas ignaras e, por isso, aparentemente democráticas.

          Carlos Lúcio Gontijo

          Poeta, escritor e jornalista

         www.carlosluciogontijo.jor.br

         01 de junho de 2018.