Carlos Lúcio Gontijo

Estou me preparando para retornar a Santo Antônio do Monte, mas não me será fácil deixar a cidade de Contagem, onde moro desde 1985. Quando desci em solo contagense já tinha lançado os meus dois primeiros livros e logo terminei CIO DE VENTO, uma obra que surgiu como alicerce do trabalho literário que hoje soma 13 livros. Tenho plena certeza de que a capacidade de escrever um livro qualquer pessoa de mediana formação cultural a possui. O difícil é fazer literatura!


Meu sentimento de união e fraternidade, germinado na certeza de que ninguém é feliz sozinho, levou-me a reunir um grupo de amigos em minha casa pelo menos três, quatro vezes ao ano. Portanto, há pessoas que se fazem presentes em meu terraço há tempos a fio, principalmente na comemoração de meu aniversário. E assim se deu em abril de 2010, quando comemorei 58 anos, o último aniversário como cidadão residente em Contagem, município do qual sou cidadão honorário com muito orgulho (proposição legislativa do vereador Arnaldo de Oliveira) e no qual, por absoluta obra do destino, contatei pessoas como o falecido Mário Clark Bacelar, um arquiteto carioca da gema, descendente de ingleses, levado de navio para ser batizado na Inglaterra e que havia trabalhado como repórter especial da extinta revista Manchete, através da qual conheceu 65 países.

 


Foi em Contagem que conheci a escritora Therezinha Casasanta, residente em Belo Horizonte, que fazia uma apresentação em colégio da cidade e se revelou uma amiga de sensibilidade e alma incomuns, tornando-se prefaciadora de meu romance CABINE 33, que foi adotado em dois vestibulares da Faculdade de Administração de Santo Antônio do Monte (Fasam). É de Therezinha o primeiro livro que minha neta leu: TRÊS POR UM TRIZ.

 


Recebi, com os olhos úmidos, amigos como o poeta Antônio Fonseca, membro da Academia Betinense de Letras (Abel), previamente encarregado de prefaciar o meu próximo livro, o romance QUANDO A VEZ É DO MAR; o ilustrador Nivaldo Marques, responsável pela arte de grande parte de meu trabalho literário; Alexandre Matos, meu companheiro e comandado no período em que fui supervisor de Revisão no indelével jornal DT; José do Carmo, companheiro de 30 anos, no transcorrer de minha passagem pelo jornal Diário da Tarde; Magela e Marlúcia Batista, amigos de infância e juventude em Santo Antônio do Monte; Ana Maria Mesquita e Adílson Batista, casal que compareceu em todos os lançamentos de livros que realizei em Belo Horizonte; Mário Antônio, filho de Dona Luzia, irmão de Rosânia (que montou 96 PPS de poemas de minha autoria) e padrinho de minha neta Luara; Carlão, professor, jornalista e sambista dos BÃO; minha afilhada Paula Nina; Gilberto Vilaça, jovem advogado que sempre me dedicou estima e consideração; o Wilson Miranda, amigo de toda e qualquer hora; Berenicy, psicóloga e jornalista, minha revisora desde o primeiro romance (O CONTADOR DE FORMIGAS), e tantos outros amigos e amigas de igual e incomparável importância (inclusive os que telefonaram ou enviaram e-mail, como é o caso do jornalista José Carlos Alexandre, meu querido companheiro, editor da página de Internacional do Diário da Tarde; o músico Ronaldo Lauria, meu assíduo leitor e parceiro musical; o advogado e escritor João Silva de Souza, autor de três livros; a poetiza e articulista Regina Morelo, detentora de talento e compromisso poético admiráveis), na formação e legitimação do que sou como poeta, como escritor, como profissional de jornalismo, como gente enfim.

 


Dia primeiro de junho próximo, iniciar-se-á a reforma da casa que eu e minha Nina adquirimos dos herdeiros de sua mãe dona Benvinda e de seu pai senhor José Rodrigues. O empreiteiro calcula que em quatro meses o serviço estará pronto e então partirei (eu e Nina, num só corpo), deixando para trás uma longa história de amizade, afeto, ternura, poesia e literatura, levando no coração, por exemplo, o nome da amiga Graça Paiva, que um dia recorreu ao patrocínio de empresárias de Contagem, que tornaram possível a edição de PELAS PARTES FEMININAS (prosa e poesia), livro que tanto sucesso ainda hoje faz.

 


Para aliviar a angústia e ainda mais fincar em mim a paisagem do terraço que assistiu a eventos íntimos como a criação de meus filhos (Amanda e Lucas), o plantio de árvore que cresceu em vaso na cobertura, a chegada da cachorra Kika (há 14 anos na família) e a produção de 11 livros (o melhor de mim), tomarei em mãos a iniciativa de lavrar o romance QUANDO A VEZ É DO MAR (21 poemas para abertura dos capítulos já estão prontos), enquanto o pedreiro Osvaldo, lá em Santo Antônio do Monte, tijolo por tijolo, vai ladrilhando a minha volta à cidade onde passei minha infância e juventude, onde joguei bola no Flamengo, onde mora meu pai José Carlos Gontijo (86 anos), que tem sido o mecenas de meu trabalho literário; e onde sepultei minha mãe Betty Rodrigues Gontijo, mandando grafar na lápide de seu túmulo um dos versos do poema Orfandade: NÃO ESTÁS, MAS ESTÁS EM TUDO.

 


Ademais, a nossa existência é assim mesmo: há coisas que, invisível e imperceptivelmente, estão e agem em nossas vidas. Talvez por isso, eu esteja indo embora para Santo Antônio do Monte, pois é de lá que eu venho e, num estender de raízes, algo me diz que nunca saí de lá; uma vez que de lá suguei (e sugo) a seiva que me alimenta na caminhada.

 


Carlos Lúcio Gontijo

 


Poeta, escritor e jornalista