Carlos Lúcio Gontijo

 

O presidente Lula assinou o projeto de aumento acima dos índices de inflação para os aposentados, mas optou pelo veto ao fim do fator previdenciário, que funciona como uma espécie de redutor draconiano engendrado no governo de Fernando Henrique Cardoso, com o objetivo de surrupiar - é esta a palavra exata - 30/40% do valor a ser recebido pelo aposentado, cujo teto é pouco mais de três mil reais, mas é visto como despesa capaz de onerar em demasia o Tesouro Nacional, que sustenta as despesas congressuais, os cargos de confiança, os aumentos estapafúrdios que frequentemente ocorrem nos três poderes, onde o máximo que é pago aos aposentados costuma estar bem distante da quantia que é destinada a funcionário público em início de carreira.

A realidade é que conceder aumento para os aposentados brasileiros é decisão humanitária do governo de muito mais significado que o decantado perdão de dívidas de países pobres ou investimento em nações latino-americanas com tão graves problemas de infraestrura quanto o próprio Brasil, que se mete a ajudar os outros antes de fazer o seu dever de casa, cuidando do bem-estar de sua gente.

O anúncio do aumento para os aposentados se deu no dia do jogo do Brasil com a Coreia do Norte, onde instrumentos como o famigerado fator previdenciário cairia muito bem e poderia ser aceito como normal. Contudo, quando mecanismo explicitamente contrário aos interesses de trabalhadores que buscam o merecido reconhecimento por intermédio de aposentadoria digna é adotado em regime democrático, temos a exata impressão de que, muitas vezes, o voto popular termina por ungir administrações autoritárias, que jamais vislumbram a filosofia de que governar democraticamente é, sobretudo, esmerar-se nas escolhas e sempre pender para o lado do povo em vez de ter na economia o objetivo único e primeiro.

Infelizmente, para a extinção do fator previdenciário seria preciso um governo com os ouvidos voltados para o grito silencioso dos aposentados (sem recursos suficientes sequer para a compra de medicamentos) e disposto a se contentar com uma taxa Selic uns dois pontos percentuais abaixo dos 13% aos quais pretende atingir até o fim do ano de 2010.

Assim agindo a autoridade burocrática, o malfadado fator previdenciário poderia ser finalmente extinto e quem sabe ser substituído por outra fórmula como aquela em que a soma da idade mais o tempo trabalhado tenha como resultado 85 para as mulheres e 95 para os homens. Estaria então a administração pública constituindo uma ação muito menos agressiva ao cidadão, que hoje assisti indignado à mão do Estado subtrair-lhe enorme porcentagem do valor da aposentaria, sob a alegação de, com essa ousadia de quem tem o poder e a força, desestimular os brasileiros de se aposentarem precocemente, como ocorreu tanto com Lula quanto com FHC.

Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista

Da ALB-MARIANA, AVSPE e ACADSAL

www.carlosluciogontijo.jor.br