TEMPO DO BEM NOVO DE CADA DIA

                                                    Carlos Lúcio Gontijo

 

O Natal de nossos dias está mais na luz da vitrine das lojas que na absorção e prática da palavra de Jesus Cristo em nome do Criador. Encaminhar-nos rumo à simplicidade talvez seja tanto ir ao encontro de uma vida mais feliz quanto dar oportunidade à construção de uma estrutura econômica mais equânime, à medida que reduzamos nossas demandas materiais e descubramos como viver com menos renda e mais ligação com a família e envolvimento com a comunidade que nos rodeia. Ou seja, o Natal não pode ser dimensionado pelo poder de compra de cada um diante da oferta de bens materiais expostos nas gôndolas e prateleiras iluminadas dos pontos de comércio Brasil e mundo afora.

É cada vez mais premente a necessidade de conscientização de que não tem como o ser humano obter alegria intensa nem duradoura através da cultura de acumulação de bens, uma opção que exige vigília permanente, seguida por uma competição selvagem no campo do trabalho, onde na maioria das vezes não existe espaço nem clima para amizade sincera que vá além da mera formalidade, pois criamos uma convivência social em que as pessoas são vistas e usadas como objetos, como coisas, segundo os interesses particulares de progressão dentro dos excludentes e estanques estratos sociais.

A busca por um estilo de vida mais simples é dificultada pela visão materialista semeada pela propagação da filosofia capitalista, em que consumir é sinônimo de existir, de ser cidadão e estar incluído no mercado, considerado uma espécie de "deus" pelo modelo econômico.

Todavia, as pessoas estão descobrindo que a polpuda conta bancária, o alto salário mensal, o carro importado e bens imobiliários não garantem a felicidade de ninguém, pois não é o "dourado no dente" que determina o volume, a luminosidade ou a intensidade do sorriso, mas sim a nossa integração com família e com a vizinhança, da qual depende a formação dos níveis de socialização necessários à confraternização e à celebração da vida, onde os sonhos mais verdadeiros não podem ser comprados nem negociados.

Tudo indica que já passa da hora de os seres humanos se relacionarem mais uns com os outros do que com a absorvente parafernália tecnológica de que dispõem e pela qual se desdobram em suas atividades, a fim de manter em dia o crediário e, assim, adquirir a série interminável de novidades, o que uma é uma exigência que deve ser cumprida à risca, ainda que à custa da fragilização do amor familiar e do afeto no tocante aos amigos e amigas.

Dessa forma, a realidade insofismável é que o chamado estilo de vida moderno negligencia valores fundamentais, fazendo com que ninguém tenha tempo suficiente para viver de acordo com suas crenças, porque todos têm por meta lutar pelo bem novo de cada dia, sob a óptica errônea de que não há como sobreviver com menos.

Dessa conjuntura comportamental, temos a precipitação de intempéries de tal magnitude no campo do sentimento que assistimos anônimos a uma incontida inviabilização do nascimento da prática de efetivo amor ao próximo, que não germina entre nós por ser resultado direto do compartilhamento diário, da confiança mútua, do congraçamento e da comunhão, que são a essência de toda e qualquer organização coletiva harmônica e bem-sucedida, em conformidade com os preceitos disseminados por Jesus Cristo, que permanece ininterruptamente crucificado pelos atos e atitudes de uma humanidade que quanto mais civilizada mais esmerada se nos apresenta em matéria de violência e desvalorização da vida, fruto de um gesto de amor e suprema concessão de Deus, que desprendidamente nos fez à sua imagem e semelhança, dando-nos o livre arbítrio, sob a esperança de que dele fizéssemos bom uso.

 

Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista

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