Carlos Lúcio Gontijo                              

        

         Se na condição de produtores de cultura, deixarmo-nos contagiar pela falta de público, incentivos oficiais de governo e até por gente avessa a tudo, com disposição maldosa o suficiente para nos jogar pechas, rotulando-nos de escritorzinho e pseudopoeta, estaremos fadados a não escrevermos uma página sequer, para alegria e gáudio da ignorância atrevida, que saiu do armário e está desfilando país afora, através das redes sociais da internet, como se fosse reluzente predicado a nos guiar rumo a um novo tempo de barbárie.

       Dias desses recebemos telefonema de nossa prima Maria do Carmo, a querida Docarmo, a quem passamos alguns exemplares de livros de nossa autoria sob a recomendação de que ela os levasse até bibliotecas de escolas da cidade nordestina em que mora; principalmente à escola de ensino fundamental que tem o nome da nossa saudosa tia Francisca Silva, que tanto nos incentivou em nossa carreira de poeta e escritor. O pensamento de entrega gratuita de exemplares de nossos livros a unidades escolares públicas acompanhava (e acompanha) nossa experiência de mais de quatro décadas de trabalho cultural independente, a nos indicar que por todo canto do território brasileiro o interesse por literatura e poesia é bastante escasso; à beira da inexistência.

       Pois bem, Docarmo que é professora de História aposentada, considerando nossa ideia um despropósito, resolveu vender os livros e, assim, saiu de porta em porta na busca de leitores – uma espécie tão rara quanto o mico-leão. No afã de conseguir quem adquirisse o produto cultural impresso, vendeu muitos livros fiados e, depois, descobriu por conta própria que, assim como livro emprestado é difícil ter-se de volta, é missão quase impossível receber o valor de literatura vendida na confiança de receber depois.

          Contudo, como nordestino é antes de tudo um forte, a prima Docarmo travou luta renhida com os devedores e conseguiu receber todo o montante. Telefonou-nos para pedir o número de nossa conta e transferir-nos o dinheiro. Notamos que ela estava feliz pelo feito, mas ao mesmo tempo triste por se deparar com tanto desdém em relação aos livros – um produto visto sem valor algum e pelo qual, definitivamente, não se quer pagar. Desiludida, ela nos disse: “Primo, se você fosse viver de vender livros, certamente passaria fome!”

       A fala da Docarmo nos remeteu ao saudoso poeta Bueno de Rivera, filho maior de Santo Antônio do Monte, cidade do centro-oeste mineiro, que ao ser convidado por nós para fazer o prefácio de nosso segundo livro (“Leite e Lua”), recomendou-nos que tivéssemos um emprego, uma profissão, pois literatura e poesia no Brasil não garantem o sustento de ninguém. Era o ano de 1977, quando iniciávamos a nossa carreira no âmbito do jornalismo, que nos deu meios de criar a nossa família e, ao mesmo tempo, dar prosseguimento às edições independentes de nossos livros.

       Nem bem acabamos de lançar nosso 21º livro (“A tartaruga Georgina”) já estamos às voltas com a obra “Bodas de bule”, composta por 40 poemas e uma novela, em comemoração aos nossos quarenta anos de casamento com Nina – companheira e cúmplice nos livros e na vida – no ano de 2019.  Jamais nos entregamos ao desânimo e sempre tivemos em mente que produto gráfico não tem freguesia em mercado de tão poucos leitores, provocando todo tipo de dificuldade aos que carregam em si o dom do exercício da arte da palavra escrita, tantas vezes semeada no pó secular da ignorância, em muitos casos com diploma de “doutor” na parede e baixa mentalidade nas atitudes.

       Não raro, somos procurados por amigos poetas em dificuldades e nunca lhes negamos ajuda e, ao mesmo tempo, cuidamos de agradecer às luzes benfazejas que nos protegeram do infortúnio, livrando-nos da precariedade que costuma atingir aos que insistem em fazer cultura neste Brasil, onde até os dias de hoje a população, intencionalmente desinformada pelos meios de comunicação e governantes programadores da deseducação, é capaz de festejar o retorno do pelourinho e da chibata como se fosse sinônimo de liberdade – como se tudo pudesse ser resolvido numa simples proximidade e aceitação das esmolas racionadas (e escravizadoras) da casa grande.  

       Carlos Lúcio Gontijo

       Poeta, escritor e jornalista

      www.carlosluciogontijo.jor.br

      14 de maio de 2018.