Carlos Lúcio Gontijo

Não há como os governantes trabalharem em prol de uma sociedade melhor se em suas planilhas administrativas houver, como parâmetro único de medição de crescimento econômico, o avanço material dos cidadãos. Há que existir espaço para que os ocupantes de cargos importantes na administração pública e lideranças sociais vejam as pessoas como um todo e não apenas como indivíduos propulsores de renda, consumo e conta bancária.

Um ser humano é depositário de riquezas maiores como a fé, a espiritualidade, o sentimento coletivo, o senso de cidadania, o conhecimento, a educação e o gosto pela leitura, elementos que o torna sensível e capaz de vislumbrar em seus semelhantes o seu próprio rosto, imbuindo-se do verdadeiro sentido da necessidade de se respeitar e amar ao próximo como uma máxima a ser seguida em nome da construção de uma sociedade melhor, mais fraterna e menos injusta, marcada pela constante busca de desenvolvimento humano.

A realidade insofismável é que não há como as nações continuarem voltadas para a proposta de crescimento econômico pautado exclusivamente na aferição de produção de bens materiais e consumo, pois não existem recursos naturais disponíveis no meio ambiente que lhes garantam indefinidamente tal postura gestora.

Todas as ocorrências que hoje se transformam em manchetes nos veículos de comunicação mundo afora apontam que o sistema que rege a economia mundial não foi elaborado com o objetivo de atender a todos, mas apenas a alguns privilegiados, que conseguem sucesso na garimpagem do ouro e do dinheiro.

Assistimos à plenitude da escravização generalizada imposta pela adoção e prática de materialismo exacerbado, que tanto atormenta os que ostentam grande riqueza, quanto escraviza o exército de pobres que esmola em todos os cantos e recantos do planeta Terra. Ou seja, os grilhões do dinheiro escravizam as pessoas, que em nome dele se tornam espiritualmente vazias e incapazes de perceber a crucificação diária de Jesus Cristo diante de tamanha desigualdade social, onde muitos podem comer dois, três bifes porque há um punhado de gente que não come pedaço de carne algum e, muitas vezes, vai dormir sem nada no estômago, como exigência e decisão insana do chamado mercado econômico, que dissemina a idéia anticristã de que, para que alguns estejam muito bem, é preciso que centenas de milhares experimentem os rigores da fome e da humilhação extrema.

A Campanha da Fraternidade 2010 traz como tema “Economia e Vida” e como lema “Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”, num verdadeiro grito de alerta da Igreja Católica, por intermédio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contra a ausência de fé e espiritualidade da sociedade de nosso tempo, que ergue seus reluzentes alicerces tecnológicos como se eles fossem substitutos de Deus, tomando-os fontes de ensinamento acima da palavra de Jesus Cristo.

Não há futuro para o bicho homem como habitante de planeta em que todos arrastem os grilhões do dinheiro no corpo e na mente, moldando uma tortura onde a confissão da perversa insensatez somente se dá em momentos críticos, nos quais – perante a fúria de tsunamis sem explicação nem poder de contenção através da parafernália engendrada pela ciência tecnológica – todos olham para o céu e clamam por Deus, trocando o brandir de cartões de crédito pelo terço de orações.

Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista

Artigo postado em 19/02/2010

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