Carlos Lúcio Gontijo


(...) Talvez, só consigamos erigir algum projeto mais eficaz no combate às mazelas e anomalias político-sociais quando, ao invés de medirmos as distâncias em quilômetros, passarmos a atentar para o fato de que o que nos separa de um ponto e outro é a nossa maneira de caminhar (...) – trecho extraído do romance “O Contador de Formigas”, CLG/1999.
A hipocrisia de nossas elites políticas não tem limites e, mesmo diante do agravamento da violência urbana (e social), elas continuam lutando tanto pela manutenção quanto pela ampliação de seus privilégios, que são responsáveis pela injusta divisão de renda e riquezas no Brasil. Cremos que não demorará muito para a alta burguesia nacional perceber que não adianta blindar seus carros, locomover-se em helicópteros, aumentar a altura dos muros e grades de suas mansões, pois nada pode deter a indignação e a revolta dos muitos brasileiros lançados à pobreza extrema em um país explicitamente rico por natureza. Não cola mais a tradição cultural de nossa tecnocracia de nada fazer como se tudo estivesse providenciando. Ou seja, não adianta mais turvar as águas para fingir profundidade, porque a cobrança do povo anda vindo de maneira cada vez mais rápida e mais irada. Todos se lembram de quando a Nação inteira assistiu estarrecida )pela tevê) ao seqüestro de um ônibus no Rio de Janeiro, envolvendo duas pessoas pobres, e o governo, em resposta ao clamor público da ocasião, alardeou medidas e investimentos na área da segurança.
Todavia, ao que nos parece, tudo não passou de um jogo de cena, agora desmascarado, mais uma vez, perante as câmaras de televisão, que mostraram as imagens de terror das rebeliões ocorridos nas prisões de São Paulo que, como acontece nos morros, são comandadas por bandidos que ocupam o vazio de ação governamental e terminam aclamados como heróis e benfeitores por pessoas abandonadas pelo Estado desde o nascimento e dispostas a se vingarem da sociedade que as subjuga numa espécie de civilizado campo de concentração ou moderno pelourinho. Não há mais como acreditar nos princípios reguladores do mercado, que fazem da competição o funil de construção do que eles julgam ser abertura de oportunidade democrática e, ao mesmo tempo, mecanismo de condenação dos que não tiverem a felicidade de sair vitoriosos e que, por isso, merecem o alijamento e a exclusão, uma vez que representam um indesejável estorvo ao progresso. Hitler, na certa, deve estar feliz, sentindo-se redimido ao assistir tamanho morticínio, como se o capitalismo tivesse como principal alavanca fertilizadora a morte da grande maioria na câmara de gás da pobreza asfixiante. Não é à toa, portanto, que vira e mexe nos deparamos com indiferenças e insensibilidades como a do joalheiro Lam Saiwing, de Hong Kong, que se deu ao luxo de construir em sua casa um banheiro todo em ouro 24 quilates, a um custo de US$4,9 milhões, dando-nos a medida exata de um mundo que corre o risco de não ser de ninguém por não conseguir concretizar o ideal de pertencer a todos.