Quando quero contar sobre mim, são livros o que conto!

                                                    Carlos Lúcio Gontijo

 

Passa da hora de o povo brasileiro tomar nas próprias mãos as rédeas da preservação, da conservação, da revitalização e do domínio de todas as suas riquezas naturais, livrando-se de entidades não governamentais que, financiadas pelo capital internacional, agem em nome de interesses escusos ou inconfessáveis, num tempo em que se avizinha a possibilidade de retorno das grandes potências mundiais a políticas expansionistas em virtude da escassez de água no planeta Terra, fenômeno que transformará o Brasil em alvo de imediata cobiça.

Os relatos sobre o uso de várias espécies de plantas medicinais pelos índios brasileiros já eram descritos pelos portugueses nos anos de 1560 e 1587, dando-nos conta de que o interesse estrangeiro pela abundante e rica flora de que dispõe o Brasil sempre existiu. A diferença hoje é que a situação se agravou muito e se transformou em verdadeira biopirataria internacional.

Dessa forma, a realidade exige que o governo brasileiro busque estabelecer mecanismos que evitem a coleta, a captura ou o transporte de material biológico, quer seja ele animal, vegetal, fúngico ou microbiano, coibindo a retirada de elementos da natureza, o transporte de um local para outro ou, ainda pior, a saída desse material do Brasil, com o objetivo explícito de descobrir o princípio ativo de todo o nosso “acervo” biológico.

Infelizmente, a exuberante biodiversidade brasileira não tem trazido benefícios para a população, uma vez que os países que dela se utilizam no desenvolvimento de pesquisas registram as patentes dos medicamentos eventualmente descobertos no exterior. A facilidade é tanta que os japoneses chegaram a cometer a audácia de patentear até o nome do cupuaçu. Estimam os cientistas que o Brasil possui cerca de 50 mil espécies de mamíferos, três mil de peixes, 1.600 de pássaros, 517 de anfíbios, 467 de répteis, 10 a 15 de milhões de insetos, além de milhões de microorganismos, o que justifica a cobiça de países estrangeiros e, mais ainda, cobra (e exige) do governo brasileiro a criação de leis que restrinjam o acesso a materiais biológicos sem, no entanto, gerar obstáculos intransponíveis aos pesquisadores nacionais, que necessitam receber incentivos através de investimento público suficiente e contínuo.

Um dos caminhos a ser tomados pelo governo é a conscientização da população a respeito da importância da flora brasileira para o progresso socioeconômico do país, pois em muitos casos a biopirataria conta, devido à indiferença derivada do desconhecimento, com a cooperação das próprias comunidades na coleta ilegal de espécies que são contrabandeadas e estudadas em terras distantes. Talvez, esteja na conscientização dos cidadãos a principal medida a ser tomada, pois a tradição de os brasileiros receberem cordialmente os estrangeiros vem sendo mal utilizada em muitos casos, a exemplo dos indígenas e da população da Amazônia, que revelam a qualquer forasteiro o segredo medicinal das plantas da região com que curam suas doenças.

 

O tema biopirataria merece ser debatido em fóruns internacionais, a fim de que sejam engendrados acordos em torno da biodiversidade como um todo, por concentrar-se nela uma riqueza determinante do próprio futuro da humanidade.

 

Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista.

www.carlosluciogontijo.jor.br