Quando quero contar sobre mim, são livros o que conto!

Maior que gente grande

                                Carlos Lúcio Gontijo

 

       Fazer literatura com pelo menos uma pequena dose de convite à reflexão é o mesmo que apressar a chegada da solidão, que geralmente é a fiel companheira dos que exercitam a arte da palavra escrita.

       Basta uma visita a qualquer feira de livro para detectar que os autores que obtêm a atenção dos poucos leitores são aqueles que se enveredaram pela literatura de autoajuda afora, ou optaram por historinhas de sexo, violência e altas doses de vampirismo banhado em insossa água com açúcar, que alcançam sucesso, a exemplo de tantos best-sellers, que certamente se perderão ao longo do caminho, substituídos por outras páginas igualmente comerciais e descartáveis.

      Resguardado na trincheira da literatura independente, assistimos ao avanço das dificuldades à medida que a visão cultural se restringe ao espetáculo, ao entretenimento de massa que na maioria das vezes (para não sermos radicais) nada soma ou nada deixa de positivo, a não ser latinhas de cerveja, mau cheiro de urina e toda espécie de sujeira pelo chão, além de inevitáveis ocorrências policiais. Contudo, temos que admitir, à medida que o povo perdeu suas raízes culturais e capacidade de manifestar suas tradições por conta própria, o Estado, por intermédio das prefeituras, se viu na obrigação de investir no entretenimento, que se transformou em indústria de alto custo para os cofres públicos.

     Vivemos uma época bem acima ao que no passado chamávamos de mundo cão, com a expressão se transformando numa afronta aos cachorros, cada vez mais, na falta de confraternização social efetiva, amigos do bicho homem, que ao seu turno se nos apresenta cada vez mais animal e animalesco.

    Não faz muito tempo postaram algumas ofensas contra nós em rede social, relativamente ao nosso trabalho literário. E gente que nunca foi sequer a um dos lançamentos de nossos 14 livros veio com jeito e ar de piedade nos dizer coisas como: nossa que injustiça, você não merecia! Contudo, logo em seguida, sem que procurássemos, pois trabalho literário costuma andar com as próprias pernas, fomos bafejados com algumas boas notícias, sobre as quais poucos se manifestaram.

   Para nossa alegria a poetisa Efigênia Coutinho, à qual não conhecemos pessoalmente (ela reside em Camboriú e é fundadora-presidente da Academia Virtual Sala de Poetas e Escritores), levou exemplar de nosso romance “Quando a vez é do mar” até o prestigiado recanto cultural New York Home Poets. Enquanto isto, a revista paulista “zaP!”, conceituada publicação no âmbito das artes, editada por Elizabeth Misciasci, jornalista, humanista, pesquisadora, escritora, palestrante, crítica literária, jurada de diversos concursos de literatura, membro ativo de grupos culturais e intelectos, voltados às áreas de educação, arte-terapia, reabilitação, inserção social e literatura, acoplou nosso nome entre os “Cem mais de 2012”.

    Diante de tais incongruências, onde mais realça a notícia ruim, nós que estamos (pois que de passagem) secretário de cultura de Santo Antônio do Monte, sentimo-nos meio desolados, pois sabemos que não é nada fácil ou até mesmo impossível mudar esse estado de coisas. Acabamos de conseguir junto ao Credimonte, o banco santo-antoniense, na pessoa do amigo Luís Antônio Bolina, patrocínio para implementar um pequeno projeto: o “Leitura Premiada”, uma tentativa de estimular o hábito de leitura entre os jovens. A ideia é que o leitor vá à Biblioteca Bueno de Rivera, retire um livro e, caso queira, faça um resumo de no máximo uma lauda (30 linhas) contando o que leu. Uma comissão julgará as redações, redundando na premiação de mil reais para o primeiro colocado e 500 reais para o segundo classificado. A premiação acontecerá no dia 16 de novembro, por ocasião do aniversário da cidade.

   Claro que a proposta é modesta perante tanto sonho de desmedida riqueza que nos rodeia. Todavia temos que trabalhar em conformidade com a nossa realidade. No fim do ano letivo do ano passado (2012), fomos à Escola Waldomiro de Magalhães Pinto, onde cursamos o ensino primário. Lá recebemos uma bela e singela homenagem. Pois bem, recentemente, em praça de Santo Antônio do Monte, quando andávamos ao lado do professor Fernando Gonçalves, nosso indispensável companheiro de gestão cultural na Secretaria de Cultura, encontramos um garotinho de ensino fundamental. Ele me olhou de cima abaixo. “Eu te conheço. Como se chama? – Sou o Carlos Lúcio… – “Ah, já sei. É o Carlos Lúcio Gontijo, escritor do Duducha, que me deu um autógrafo!

    Emocionado abracei o menino. Era o pequeno Ítalo, maior que muito adulto por aí. Veio-nos à mente frase do romance “Quando a vez é do mar”: Sem a grandeza de criança, adulto algum consegue ser gente grande.

       Carlos Lúcio Gontijo

       Poeta, escritor e jornalista

       www.carlosluciogontijo.jor.br

      05 de janeiro 2013