Quando quero contar sobre mim, são livros o que conto!

(*) Carlos Lúcio Gontijo

  É da planta dos meus pés fincados no chão e na ternura das amizades verdadeiras que me vem a soberana energia das ideias, que inspira, cria raiz e viça em minha mente. Os poemas, novelas e romances têm nascedouro na proximidade, pois a gente escreve sobre o que conhece, ama e preserva na memória do coração. Pode-se afirmar então que escrever é sinônimo de tecer prosa e verso com a lã colhida no rebanho de palavras apascentado nas planícies da alma.
  Quando na pré-adolescência ganhei uma muda de pé de pêssego, que me foi dada pelo saudoso Chico Sabino, que tinha uma chácara em plena área central de Santo Antônio do Monte. Eu levei a pequena planta para casa e a dei para minha mãe, que me apontou o local no qual eu deveria plantá-la no quintal. Passados alguns anos, lá estava o pessegueiro dando os primeiros frutos, dos quais mãe Betty fez saboroso doce. Na oportunidade, em tenra idade, aprendi que é preciso plantar e cuidar, a fim de que chegue o tempo de colheita.
  Dessa maneira, quando me enveredei caminho afora da poesia e literatura já carregava no pensamento a necessidade de semear e entregar a criação poético-literária aos caprichos do destino e do futuro, pois trabalho intelectual é (sobretudo) semeio, feito aquele pé de pêssego, que teve que enfrentar as intempéries, correr riscos de perecimento, até alcançar a maturidade e cobrir-se de frutos.
  “Leite e Lua”, meu segundo livro (publicado em 1977), foi prefaciado pelo poeta santantoniense Bueno de Rivera, que me aconselhou a buscar aperfeiçoamento da minha escrita. Disse-me, com extrema delicadeza e sinceridade, que eu era talento em pedra bruta e que, portanto, necessitava passar por intensa lapidação como costuma suceder com os diamantes. Segundo ele, se assim não procedesse, eu lançaria mais um ou dois livros e, estagnado, desistiria da construção de trajetória de escritor.
  Ouvi atentamente o renomado poeta e passei dez anos à procura de um estilo de escrever para chamar de meu. Nesse período, descobri que o melhor conselheiro dos autores é a lata de lixo. Então só voltei a publicar no ano de 1987, lançando o livro “Cio de Vento”, ao qual considero o alicerce de minha obra, servindo de base aos meus 27 títulos e até mesmo à produção dos artigos de opinião e editoriais. Absorvi assim os conceitos em relação à consciência social, à sensibilidade, à prática do amor ao próximo, aliando tudo à absoluta certeza de que é a poesia que mantém em mim os atributos humanos perante uma sociedade desumana.
  Poesia e literatura encontram muitas pedras no caminho, desde a escassez de leitores até a enorme dificuldade de impressão, que se nos apresenta com custos bastante elevados. Gente de sensibilidade, como é o caso dos autores, sofre demasiada e constantemente, pois o mundo está cheio de gente com diplomas e honrarias intelectuais dando aula de ignorância.
  No ano de 2011, depois de ter feito carreira jornalística em Belo Horizonte e Contagem (cidade da qual sou cidadão honorário), eu e minha amada Nina retornamos a Santo Antônio do Monte, que não é a mesma cidade, uma vez que a paisagem não conta mais com a presença de muitos amigos que partiram rumo ao mistério das muitas moradas do Criador, inclusive os pais da Nina (Sr. José Rodrigues e Dona Benvinda) e minha mãe Betty.
  Desde o meu retorno a Santo Antônio do Monte, escrevi e publiquei 14 livros (em 13 anos). Faço caminhada todos os dias no Condomínio Chico Sabino, o lugar onde joguei bola com meus amigos e que mais me remete à inocência de minha doce meninice. Foi fazendo esse percurso, que me exige sair de casa, subir toda a Avenida Amâncio Bernardes, atravessar a Rua Sebastião Gontijo, onde ficava a casa de minha mãe Betty – que em espírito ainda age, porque gostava tanto de plantas que no local funciona hoje uma floricultura.
  Com toda a certeza, esse cultivar em mim de tanto amor à natureza é herança de minha mãe, natural do Mato Grosso – que trazia no olhar a floresta, a bicharada, a passarada e a umidade dos alagados pantaneiros –, influenciando até a minha literatura, através da qual embarco na elaboração de um poema sem saber aonde o revolto mar de versos me levará.
  É somente na morada eterna do Criador que o bem reina sem o risco de cruel oposição, por isso não bato palmas para maluco dançar e nem tomo assento onde não tenho lugar de fala. Caminho sempre tranquilo como se estivesse numa caminhada no Condomínio Chico Sabino, sob a mais absoluta consciência de que a Providência, na presença de um perigo, dá-nos o meio de enfrentá-lo. Vivemos dias anômalos, nos quais o sucesso não recai sobre quem apresenta trabalho de qualidade, mas sobre aquele que atrai mais atenção.    Preparo-me para lançar meu 27º e último livro (“Palavras sem Impressão”) no ano de 2029, depois de mais de cinco décadas de labuta literária. Morei em muitas casas, mas nenhuma delas foi tão minha quanto a casa de minha mãe, que partiu deste mundo levando com ela a minha infância, mas deixando-me lembranças que me conduziram à lavra de um romance em sua homenagem (“Jenipapo no Ponto”), conforme um dia lhe prometi. Todavia, antes, como a muda de pessegueiro que o saudoso Chico Sabino me deu, tive que aguardar o florescimento e alguma autolapidação de meu espírito, para poder alinhavar romance tratando dos passos terrenos daquela que serviu de berço, em carne e osso, à minha vinda a este mundo de vida passageira, pois um dia retornarei ao pó de dicionários e livros abandonados no acervo de um sebo qualquer, cumprindo os desígnios da Existência, que nos ensinam que os rios não remontam às suas fontes, mas os seres humanos retornam ao Criador.

CHÃO NATAL
Guardo em mim a minha terra
Por onde ando a levo comigo
É amuleto que a tudo desemperra
Espécie de mãe que me dá abrigo
A ela atrelei meu cordão umbilical
Semeio no chão natal o que serei
E dar-lhe-ei o meu corpo no final!

(*) Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista

(Artigo publicado na antologia ACADSAL EM PROSA VERSO – Volume I/2024)

19 de dezembro de 2024.