(*) Carlos Lúcio Gontijo
Da riqueza e do poder vêm as paixões que nos ligam à matéria e nos afastam da divina Espiritualidade. Ao me direcionar ao registro fonográfico de poemas de minha autoria musicados por amigos talentosos do mundo musical, tinha em mente efetivar uma edição restrita e marcada com capricho na construção artística, como maneira de compensar a falta de dinheiro para investir num produto mais bem encorpado. O fato é que, com a ajuda de minha esposa Nina, saí pra luta; estava predeterminado a honrar o esforço despendido pelos amigos músicos na musicalização de meus poemas, ouvindo uma voz interior que, insistentemente, me dizia: Não espere encontrar no outro o fruto doce que deveria estar em você mesmo.
Confesso que jamais esteve nos meus planos a gravação de um CD, mas o tempo cuidou de dar andamento a tal viabilidade, desde o ano de 2004, quando o amigo Ronaldo José Lauria musicou o meu poema “Núcleo” e compôs o rock “Virgem Santa sem Cabeça”, baseado no enredo do romance homônimo, meu sétimo título, lançado em 2000. Lauria conseguiu inserir na letra da música até uma frase repetida constantemente por uma personagem central do livro: “Quando Deus deixar de ser Deus, eu deixo de ser homem”.
Depois, apareceu o maestro Otaviano José Coimbra Batista (o saudoso “VAI”), que musicou o poema “Sangue Montense”, uma homenagem a Santo Antônio do Monte, entregando sua interpretação ao cantor Orvile Oliveira (o saudoso “BIBI”). E tudo foi dando origem a um horizonte perfeito, comprovando-me que “POESIA é assim: se é, sobeja. Se não é, por mais bonitinha que seja, não é de jeito nenhum!”
Então já eram três músicas e eu começava a sentir que, realmente, “os caminhos se abrem aos que sonham, aos que creem em lendas e têm asas nos passos”. Ou seja, já vislumbrava ao acaso a formação de um repertório musical. Contudo, permaneci resolvido a não forçar barra, sob
a crença de que o que tivesse de ser viria (e seria). O estágio era mesmo de aguardar os acontecimentos e eu trazia na mente o aprendizado de que tudo na vida tem o seu próprio momento de vir a lume, afinal “Tem gente que nunca realiza a lapidação de si mesmo, pois acredita ser exemplo raro de perfeição”. Talvez, ainda não fosse a hora de tocar o projeto musical, sobre o qual não tinha nenhuma vivência.
Como por toda a vida “faço da poesia um concerto, para consertar este nosso mundo quebradiço”, o Criador sempre dá um jeito de se manifestar na trajetória de minha existência. E eis que me aparece o Eline Elaine Silva, residente em Simonésia, cidade da Zona da Mata mineira. Eline tem a mania de ler poesia cantando e começou a me mandar poemas meus cantados por ele. Mesmo sem o conhecer, dei-lhe a devida atenção, selecionei as composições mais melodiosas e comecei a solicitar aos músicos amigos que providenciassem arranjo para os “poemas cantados”.
Providencialmente, a hora não podia ser mais oportuna, pois havia acabado de firmar conhecimento e amizade com os músicos Antônio Oliveira e Vilminha de Melo, ambos de Lagoa da Prata, que se juntaram a dois outros talentos musicais de Belo Horizonte, o Ronaldo Lauria e o Harildo Norberto Ferreira, que em curto espaço de tempo fizeram os arranjos e, ainda melhor, emprestaram suas vozes à interpretação dos poemas musicados, contando com a sonora e “ensabiada” participação do grupo musical da ACADELP (Academia de Letras de Lagoa da Prata). Então, como “na luta entre o bem e o mal, vence aquele que o homem deixa imperar sobre si”, a modesta iniciativa de elaboração de um projeto musical se nos apresentou auspiciosamente vencedora.
Claro que não estava tudo resolvido, uma vez que dispúnhamos de escassos recursos e os empecilhos eram muitos, como é comum a todo trabalho cultural independente. Todavia – não perco tempo com as pedras no caminho. Delas me desvio como se eu fosse água de rio – eis que, utilizando minha experiência de editor de livros e páginas de jornal impresso, montei o repertório, gravei poemas declamados, escolhi fundos musicais e até me arrisquei num poema cantarolado – estava constituído o CD, que foi levado ao estúdio do Robson Borges, aqui em Santo Antônio
do Monte, para uma restrita impressão, compensada com postagem no meu site (www.carlosluciogontijo.jor.br) e também no YouTube.
Pensei que a poesia fosse o combustível da caminhada, mas hoje sei que ela é o próprio caminho, ou seja, posso afirmar que foi a luz da poesia que me foi abrindo oportunidades, ensinando-me que, para se viver em paz, é preciso saber de quem se aproximar e, principalmente, de quem se afastar. Afinal, tem gente que não pode saber muito, pois já é arrogante com o pouco que aprendeu.
A feliz soma de tudo pôde-se ver e ouvir no dia 25 de abril de 2025, quando (sob as lentes fotográficas do amigo Mário Antônio de Oliveira) membros da Academia de Letras de Lagoa da Prata em primorosas declamações e o grupo musical da ACADELP, sob o comando do Antônio Oliveira, em espaço da Biblioteca Pública Cel. José Vital, cedido em apoio da Secretaria de Cultura e Turismo de Lagoa da Prata, derramaram abundantemente o melhor que qualquer arte pode nos oferecer: a sua sofisticada simplicidade.
(*) Carlos Lúcio Gontijo
Poeta, escritor e jornalista
26 de abril de 2025.