Quando quero contar sobre mim, são livros o que conto!

Ter resposta pronta e imediata para tudo passou a ser uma exigência em nosso tempo, onde a ideia preponderante é “deletar”, num piscar de olhos, tudo aquilo de que não se gosta ou atravessa momento ruim, inclusive relações de amizade e amor – não há perdão! A dura realidade é que ninguém tolera a espera, não há espaço para o semeio, para os estudos acadêmicos: a internet é o grande canteiro de colheita, onde a falta de intimidade com a leitura e interpretação de texto conduz a conclusões ilógicas e sem qualquer amparo científico.
As pessoas passaram a agir por instinto, abrindo mão da análise e do conhecimento, em conformidade com pesquisas que indicam que, no ano de 2022, 84% da população adulta do Brasil não comprou nenhum livro. Dado assim tão dramático explica o porquê de as livrarias estarem em processo de crise e inviabilidade comercial, além de expor as vísceras de baixa intelectualidade coletiva capaz de fazer de cada eleição uma caixinha de surpresas, da qual se pode extrair a legitimação do autoritarismo através das urnas democráticas.
Nem dá para saber a quanto tempo andamos por atalhos indicados pela necessidade de caminhar ligeiro, ainda que na escuridão e sem saber aonde ir, salpicando penumbra e escuridão sobre todo o tecido social. Não escapam dessa conduta trágica nem as comemorações de fim de ano, nas quais o sentimento de fraternidade é fundamental: sem natal no coração não há iluminação capaz de dar suporte e clarear a chegada de Jesus Cristo.
O teatro da convivência em família segue em desaquecimento contínuo. Eu, por exemplo, tenho certeza plena que “mamãe era nossa moradia. Depois de sua morte, a família não mais se reuniu, pois emocionalmente somos ‘sem-teto’”. Creio, firmemente, que paramos de avançar na área do sentimento coletivo, pois (se assim não fosse) as nações não assistiriam passivamente ao bombardeio israelense sobre os palestinos na Faixa de Gaza, que leva aos lares do mundo inteiro as imagens de injustificável extermínio generalizado, sob a desculpa de combate ao terrorismo.
Como os nossos políticos são extraídos do meio social em que vivemos, não podemos assustar-nos com o fato de jamais ver representante público com livros nas mãos ou expostos sobre suas mesas de trabalho nas casas congressuais em Brasília e Brasil afora. A gente dificilmente se depara com a presença de político em evento cultural, aos quais eles desprezam profundamente. Nas minhas andanças por municípios levando meus livros e muitas vezes doando obras infantis de minha autoria a escolas públicas de ensino fundamental, apenas por uma vez aconteceu a presença de chefe do Executivo municipal: o prefeito Cabral, em Bom Despacho.
Aconselho aos jovens poetas e romancistas a não se deixarem levar pela cobrança de retumbante sucesso imediato, pois no ambiente literário o semeio não deve ser interrompido pela falta de germinação e florescimento da palavra semeada, que ao mundo contempla do alto de uma estante numa biblioteca qualquer, pescando um leitor aqui, outro acolá, apesar do mar de ignorância no qual vivemos.
Enfim, ciente de que gente moral e intelectualmente muito baixa (entronizada em elevados cargos) conduzirá o mundo a uma situação insustentável; trafegando na abandonada “faixa de gaza cultural” desde o lançamento do primeiro livro em 1977; e mantendo no ar um site com os meus 27 livros desde o ano de 2005, ouso afirmar que o vento da insensibilidade pode levar os meus versos como areia no deserto, mas ainda assim restará poesia em mim.

Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista

www.carlosluciogontijo.jor.br

13 de dezembro de 2023.