Quando quero contar sobre mim, são livros o que conto!

Carlos Lúcio Gontijo

 

       Todas as atividades têm as suas peculiaridades e as suas dificuldades, mas todas elas exigem persistência e trabalho. A literatura não foge à regra e, mais que isso, diferentemente de qualquer outra ocupação, o esforço despendido não representa garantia de sucesso, que em muitos casos não é presenciado pelo autor ainda em vida. Ou seja, o imediatismo que predomina sobre as ações humanas nos dias de hoje pouco significado alcança no ambiente das letras, ainda que haja quem busque pesquisar tema de interesse popular e capaz de tornar uma obra mais comercial.

       Entretanto, ao contrário de todos os demais produtos, o valor de um livro não tem muita relação com o seu sucesso de venda, pois na literatura o modismo quase nada conta, porque em seu âmbito o tempo é, realmente, o senhor da razão. Este aspecto inarredável do meio literário age como se fosse um providencial bálsamo de humildade, ainda que muitos produtores da arte da palavra se nos apresentem sob o caráter de extrema vaidade.

       Autor comprometido com o seu trabalho sabe que precisa do apoio de muita gente no presente e permanecerá necessitando dos olhos de seus casuais leitores pelos tempos afora. Da nossa parte, fazemos sempre questão de agradecer aos diagramadores, ilustradores, revisores, jornalistas e amigos que divulgam nossos livros e aos leitores que prestigiam as nossas noites de autógrafos, cometendo a cortesia de nos estimular e incentivar.

       No dia 05 de abril deste ano de 2014, fomos ao Centro de Turismo e Cultura João Robson de Castro, a fim de receber e ministrar palestra aos alunos da escola rural de São José dos Rosas, em nome da Administração Municipal de Santo Antônio do Monte e sua Secretaria de Cultura. Na ocasião, sorteamos livros de nossa autoria para a meninada. Depois, terminado o encontro, fomos para casa, colocamos uma bermuda e saímos para a rua, onde encontramos duas garotas acompanhadas da mãe, que ao nos ver lhes disse: Aquele é o autor do livro “Duducha e o CD de mortadela”! Então, elas correram ao nosso encontro e, guiados pela gratidão diante da demonstração de tanto carinho, as convidamos para irem até nossa casa, à qual havíamos acabado de deixar com o objetivo de levar mais um quadro para ser dependurado na parede reservada ao nosso trabalho poético, pela pizzaria “Koisa Nossa”.

       Presenteamos as irmãs com os livros de nossa autoria com os quais elas tiveram contato na biblioteca da escola em que estudam. Ficaram contentes da vida e fizeram questão de que a mãe batesse fotos, registrando o momento de aproximação com o autor, uma ocorrência que deveria ser natural e até mesmo estar embutida em projeto governamental, no qual as primeiras leituras deveriam privilegiar autores regionais, com cada unidade escolar podendo contar com a visita de escritores, quebrando o mito da arte de escrever e tornando-a uma atividade possível e acessível a quem demonstre vocação e talento para tanto.

       Temos consciência de que as grandes editoras que controlam a exploração do “filé” editorial, representado pelo nicho de livros selecionados para distribuição oficial às escolas Brasil afora, não admitirão adoção de mudança no processo vigente. A elas não incomoda a quantidade de livros que fica encostada nas prateleiras das escolas, por se mostrar distantes da realidade, da linguagem e das experiências visualizadas e sentidas pelos alunos que buscam os primeiros contatos com o mundo da leitura. Tal panorama, nitidamente prejudicial, pôde ser observado por nós, no caso daquelas duas meninas, que (segundo relato da mãe) se recusavam a acreditar que o escritor do livro de que tanto gostam morava na mesma cidade que elas – aqui em Santo Antônio do Monte.

       Carlos Lúcio Gontijo

      Poeta, escritor e jornalista

      www.carlosluciogontijo.jor.br

     7 de abril de 2014.