Quando quero contar sobre mim, são livros o que conto!

(*) Carlos Lúcio Gontijo
  Sempre me preocupei em trabalhar contra a elitização do ambiente literário, razão pela qual os lançamentos de meus livros ao longo dos anos (desde 1977) foram marcados pela heterogeneidade de público, uma vez que existe leitor em todos os segmentos sociais, apesar do escasso gosto pela leitura constatado Brasil afora.
  Diante do avanço da tecnologia digital assistimos à insistência dos gestores do meio cultural na promoção de eventos culturais direcionados a pessoas mais bem aquinhoadas. Observamos a transformação de manifestações como o carnaval e o futebol, tidas antes como populares, caminharem rumo ao elitismo. Esse triste horizonte de cultura sem povo é estampado de maneira explícita nos desfiles de escolas de samba no Sambódromo do Rio de Janeiro ou nas partidas de futebol, às quais praticamente apenas os sócios-torcedores têm acesso – e na maioria das vezes são transmitidas pelos canais pagos de televisão.
  É evidente que todas as atividades humanas caíram nas mãos do capitalismo selvagem e fica a lição que dar chave de galinheiro à raposa é o mesmo que contratar ladrão para segurança de casa. A realidade é que não temos política de governo no campo cultural – o que prevalece é a bem-intencionada Lei Rouanet, que libera aos autores o direito à captação de recursos junto aos empreendimentos privados, que por sua vez optam por produtos culturais mais palatáveis, não reflexivos e de rápida absorção perante a população, gerando os sucessos passageiros tão incentivados pela indústria de evento, especializada em promover os tais sucessos de verão.
  Impera então a cultura de empresa ao passo que a literatura é vista como algo avesso à busca de lazer, o que explica o fato de a leitura não ser mais considerada um momento de prazer e aprendizado enriquecedor da mente. O resultado de tamanha anomalia é a ratificação de que, se a pessoa padece de baixa mentalidade, não importa quantos diplomas obtenha, pois estará sempre sob o domínio da mediocridade.
  Lamentavelmente, uma sociedade que patrocina deliberadamente a derrocada intelectual de sua gente, mergulhada na desinformação e escolaridade insuficiente, está fadada a gerar cidadãos de decisões e gostos duvidosos, em prejuízo de toda a nação, pois todo esse feixe de precariedade educacional desaguará sobre a democracia, que poderá sucumbir-se ao receber como resultado das urnas a legitimação de políticos arbitrários e sabidamente detentores de pendores fascistas e ditatoriais.
  Quem nos dera que as escolhas ruins só afetassem os donos da opção! Mas não é assim que funciona a convivência em sociedade, o que nos leva a alertar sobre a necessidade de proporcionar acesso democrático à população a um sistema educacional de qualidade e capaz de semear mentes livres que não permitam a implantação de regimes políticos desejosos de trabalhar pela retirada de direitos sociais e extinção da proteção às camadas menos favorecidas da população, que ainda recentemente assistiram impávidas à implantação de uma reforma draconiana no regime de aposentadoria, que preservou todos os privilégios dos abastados e intocáveis.
  É sob esse estado de coisas que produzo literatura há meio século. Apesar de todas as dificuldades mantenho (desde 5 de junho de 2005) um site, no qual disponibilizo 27 livros (com a liberdade de o casual leitor fazer “download” gratuitamente), enquanto percebo que uns nada leem, outros fingem que leem. O resultado é escritor independente pedindo auxílio, implorando emprego ou subempregado. Mas quem se importa, né! O que interessa são as trombetas – sabe-se lá de quem – anunciando mais uma sexta-feira capaz de dar sentido a vidas desprovidas de sentido.

Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista

www.carlosluciogontijo.jor.br

07 de fevereiro de 2024.