Quando quero contar sobre mim, são livros o que conto!

(*) Carlos Lúcio Gontijo
  Quando nasci no dia 27 de abril de 1952 o Brasil já era o país do futuro e, agora, em 2024 comemoro 72 anos com a nação brasileira ainda à espera da alvissareira bonança que nunca vem, permanecendo atavicamente na construção de oásis de fartura e prosperidade para poucos. A mentira esparramada Brasil afora por intermédio da internet aderiu como luva aos interesses da elite conservadora de direita, que sempre soube que informação é fonte de poder e passou a espargir inverdades sobre tudo, inclusive no campo da ciência – então contestada não com estudos, mas com suposições e achismos absurdos como, por exemplo, a Terra plana e o posicionamento antivacina.
  O golpe engendrado contra o governo Dilma e a prisão do presidente Lula, esquemas orquestrados pelo Congresso, instituições, classes abastadas e até o STF, jogaram as camadas mais pobres nas mãos de algozes históricos, que logo cuidaram de sucatear os sistemas de proteção aos necessitados, além de providenciar a precarização da lei trabalhista, desequilibrando a relação de forças entre trabalhadores e patrões.
  Dessa maneira foi materializada uma espécie de retorno à escravidão, onde convivemos em ambiente bastante estranho, no qual depois de certo tempo o “refém” sente afeição por seu algoz e aceita de bom-grado qualquer maldade como se fosse gesto de amor. Por longo tempo, experimentamos um enorme temor de o Brasil retornar a regime autoritário, onde não há lugar para diálogo e, certamente, todo o setor cultural e artístico seria fortemente perseguido, como já se delineava nas redes sociais, mergulhadas em desabrida campanha contra a difusão do conhecimento e claramente determinadas a elevar a ignorância ao grau de predicado.
  Apesar da atmosfera contraditória e avessa à produção de livros, não deixei de seguir metas anteriormente traçadas, mantendo a publicação de livros e projetando a reformulação de meu site, que hoje é acessível a todas as telas (celular, computador e tablet). Honrei o esforço de minha mãe Betty Rodrigues Gontijo, que tanto agiu para que eu pudesse exercitar o meu dom de escriba menor. Mamãe trouxe-me à luz quando nasci e, depois, ao caminhar ao meu lado, ajudando-me a vender (porta a porta) meus primeiros livros.
  É com muita tristeza e preocupação que assisto à fé rebaixada a negócio, bibliotecas fechadas e o sonho de grande nação inviabilizado pelo avanço da ignorância, como bem nos evidencia pesquisa do Instituto Data Folha indicando que 11 milhões de brasileiros ainda acreditam que a Terra é plana.
  Estudos científicos nos dão conta que o Planeta Terra está se afastando de seu eixo, em consonância com os seres humanos que jamais entraram nos eixos da fraternidade. Lamentavelmente, tem muita gente infeliz por aí que cultiva como único prazer na vida a mórbida tentativa de estragar o dia os outros. Por essas e outras, nem sei quanta gente por aí com o coração sopitando maldade e mãos incapazes de qualquer gesto de solidariedade!
  Vislumbro que o mundo está cheio de gente com diplomas e honrarias intelectuais dando aula de ignorância. Vem daí o fato de eu encarar com humildade a minha longa trajetória no âmbito poético-literário, pois ser poeta e escritor não me faz diferente de ninguém. Cada um de nós tem uma maneira de registrar sua breve passagem pela Terra. Ademais, escritor que se julga imortal por ser membro de academia de letras NUNCA OUVIU FALAR EM TRAÇA.
  Percebo com alegria que, além dos estados sólido, líquido e gasoso, temos o estado poético: é nele que eu vivo. Como disse no início deste texto, estou prestes a celebrar meus 72 anos, e o farei com o lançamento do livro “100 TEMPO” (meu 26º título) em Belo Horizonte, no dia 27 de abril de 2024, no espaço cultural do XANGÔ. Será minha última sessão de autógrafos, pois a obra “PALAVRAS SEM IMPRESSÃO” (então 27º título, aos 77 anos, dentro do signo do pintando o número sete) tem publicação programada para o ano de 2029, data em que comemorarei “Bodas de Ouro” de meu casamento com a amada Nina – enquanto também festejarei a marca de 52 anos de publicação do primeiro livro (“Ventre do mundo”) registrada no ano de 1977. 

Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista

www.carlosluciogontijo.jor.br

30 de janeiro de 2024.