Quando quero contar sobre mim, são livros o que conto!

           Carlos Lúcio Gontijo

          Tenho que dizer do meu cansaço e do meu desânimo perante o horizonte cultural opaco dos nossos dias. Pode não haver nada com o assunto, mas neste instante passa um garoto diante da janela de minha sala de trabalho. Ouço-o gritando: “Cala a boca!” Então, fico observando, à espera de visualizar a pessoa a quem o garoto, bem vestido e de mais ou menos uns oito anos, destratava. Pela aparência, era a avó, que vinha logo atrás, com o semblante triste e vagarosamente caminhando.

          O fato me remeteu a incidente que ocorreu aqui em Santo Antônio do Monte durante uma cerimônia natalina, na qual o “Papai Noel” desfilou por ruas da cidade e, em seguida, se dirigiu para a abertura de sua casa, onde se sentaria numa cadeira e receberia as crianças para tirar fotos e distribuir balas, sob a trilha sonora de uma banda de cordas composta por crianças e adolescentes. Tudo simples e realizado com os sacrifícios de sempre que acompanham todo e qualquer evento brasileiro de cunho cultural.

          Pois bem, no local em que foi montada a casa do “Papai Noel” havia umas 40 árvores enfeitadas com luzinhas pisca-pisca. O local ficou um encanto, que aos olhos das crianças mais parecia um sonho. Contudo, sem mais nem menos, um grupo de meninos, talvez contrários à claridade, puxou a fiação de todas as árvores, apagando as luzes de todas elas e destruindo a decoração que consumiu uma semana de muito trabalho.

          Foi um nove de dezembro que ficará registrado em minha mente pelo restante de minha vida dedicada ao jornalismo de opinião, à poesia e à literatura, guiado pela esperança de assim estar contribuindo para a construção de um mundo melhor, onde não haveria espaço para criança desrespeitar avó nem atacar, animalesca e insensivelmente, símbolos natalinos, que nos remetem a Jesus Cristo e à necessidade de confraternização entre os homens, com o objetivo de colocarmos em prática o fundamental mandamento cristão de amar ao próximo.

          Pode parecer que não, mas a questão cultural é exponencial no sentido de se buscar solução para o problema de violência generalizada, com as pessoas se relacionando como se pudessem deletar umas às outras a qualquer instante. Ou seja, trouxemos para as ruas a frieza do mundo virtual e estamos montando o nosso destino como se fosse um jogo de computador, baseado na eliminação e não no amor ou acolhimento de nossos semelhantes.

          Talvez o maior problema da educação brasileira seja a sua baixa interligação com a cultura, que é o mecanismo apropriado para direcionar o conteúdo educacional, que precisa ser humanizado pelo acesso à poesia, à literatura, ao teatro, ao cinema, à música de qualidade, aos esportes, à pintura, à escultura, enfim ao processo de sensibilização proporcionado pela magia impregnada nas atividades artísticas. Porém, como não cuidamos de fortalecer o elo educação e cultura, permanecemos na fatídica jornada de formação de maus médicos, advogados, engenheiros e tantos outros profissionais que atuam em suas áreas de trabalho sem a menor atenção para com o próximo, agindo como aqueles meninos que, num momento de selvageria, apagaram as luzes do Natal.

Carlos Lúcio Gontijo

Poeta, escritor e jornalista

www.carlosluciogontijo.jor.br

12 de dezembro de 2013